Aluna de biblioteconomia de baixa renda denuncia preconceito sofrido em universidade

Mariana Monteiro, 22 anos, afirma que é perseguida por ser pobre e negra. Professora nega acusação e diz que aluna tem comportamento inadequado.

Mariana Monteiro afirma que é perseguida por ser pobre e negra. (Foto: Mariana Monteiro/ Arquivo Pessoal)

Mariana Monteiro afirma que é perseguida por ser pobre e negra. (Foto: Arquivo Pessoal)

Constrangida e discriminada. É assim que universitária Mariana Monteiro, 22 anos, conta que se sente durante as aulas do curso de biblioteconomia na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém. Ela afirma que é perseguida por uma professora por ser negra e estudante de baixa renda. No último dia 10, a universitária foi expulsa de sala e conta que registrou queixa contra a docente na ouvidoria da instituição e na polícia.

Procurada pela reportagem do G1, a professora universitária Maria Odaisa Espinheiro nega todas as acusações e reforça que em suas décadas de magistério no ensino superior nunca passou por situação igual. A professora, porém, admite que houve um desentendimento em sala de aula com a referida estudante, mas diz que tal situação está ligada à falta de decoro e participação, além de comportamento inadequado ao ambiente acadêmico, por parte da universitária.

“Essa professora vem implicando comigo há muito tempo por causa de apostila. Ela exige que eu tenha o material na aula dela. Por mais que você diga que não tem dinheiro, ela não entende. Os outros professores permitem que você se junte com um colega que tem a apostila”, conta Mariana.

A estudante conta que mora com a mãe, que é faxineira. As duas vivem com o salário da mãe e de duas bolsas que Mariana ganha no estágio e para permanecer estudando. O orçamento da família é apertado e a jovem afirma que muitas vezes não tem dinheiro para despesas com o material didático, muito menos para comprar roupas ou sapatos novos.

Expulsa de sala

“Eu estava sentada, com as pernas enroladas, quando ela me mandou sair da sala por isso. Eu perguntei se porque eu era preta e pobre ela tinha preconceito comigo. ‘Toda aula a senhora me critica, quando eu to lendo a senhora diz que eu sou ruim, que não sei ler, a senhora me constrange’”, relata Mariana.

Mariana conta que, durante a discussão, a professora questionou o caráter da aluna. “Ela disse que eu era ‘diferente’ de caráter. Eu tenho o caráter excelente, nenhum outro professor tem reclamação de mim, só a senhora”, lembra a jovem.

“Ela disse que só tinha queixa de mim. Ficou falando baixinho: ‘Eu não suporto essa menina’, conta a aluna. “Venho de sandália, de saia, short. Não tenho roupa chique, não ando com bolsa de marca”, afirma Mariana.

“Me senti discriminada em sala de aula. Percebo que é só com pessoas negras ou porque eu venho de roupas simples. A faculdade inteira sabe, mas tem medo de represálias. Uma vez, em sala, disse que o rico é rico porque tinha estudado e o pobre porque tinha estudado menos”, conta ainda.

Mariana procurou a ouvidoria da instituição para denunciar professora. (Foto: Mariana Monteiro/ Arquivo Pessoal)

Mariana procurou a ouvidoria da instituição para denunciar professora. (Foto: Arquivo Pessoal)

Perseguição

Outros alunos também partilham da opinião de Mariana. A estudante Monique Pantoja, 19 anos, faz a disciplina na mesma sala e presenciou o ocorrido.

“A professora já de olho na colega, mandou o pessoal sentar direito, não cruzar as pernas. A Mariana estava lendo o texto aí de repente a professora pediu, não foi bem um pedido, foi uma ordem, para ela sentar direito. Aí começou a discussão. Porque nas aulas anteriores, toda vez que alguém dizia que não tinha texto ela ameaçava dar falta pro aluno”, relata Monique.

“A professora não gosta das pessoas que não parecem como ela quer que pareçam. Ela quer que todo mundo se comporte, leia do jeito que ela quer, quando não, reclama. Quando a gente tenta contribuir pra aula, ela desanima, diz que só ela sabe”, conta a aluna.

“A Mariana não é o tipo de aluno que ela quer. Mas acho que é pelo fato da professora ser rica. Perseguindo pelo fato da Mariana ser pobre e pelo modo da Mariana se vestir”, diz Monique.

Em nota, a Universidade Federal do Pará (UFPA) informou que recebeu, via ouvidoria, a denúncia da estudante de biblioteconomia sobre constrangimentos que a jovem teria sofrido em sala de aula na instituição. A professora da UFPA e a estudante já foram ouvidas durante o processo aberto e o caso se encontra em análise.

Fonte: G1

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