Apoio para a leitura dos cegos em BH

Projeto atende cerca de dez pessoas por dia no Setor Braille da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais

Perfil. Os voluntários do Setor Braille têm de 14 a 80 anos e cada um lê entre uma e duas horas por dia; os atendimentos são agendados (Foto: Reprodução/O Tempo)

Perfil. Os voluntários do Setor Braille têm de 14 a 80 anos e cada um lê entre uma e duas horas por dia; os atendimentos são agendados (Foto: Reprodução/O Tempo)

Toda quinta-feira, a professora Érica Sarsur, 27, passa pela estátua de Fernando Sabino instalada em frente à Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, na praça da Liberdade, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, e segue para seu encontro marcado com a advogada Cristina Rodrigues Silva, 39. O ritual se repete há um ano e não tem data para terminar. Cristina tem um sonho: ser funcionária pública. Como milhares de brasileiros que querem passar em um concurso, ela é disciplinada, dedicada e tem disposição para passar horas estudando.

Mas ela não pode, como a maioria das pessoas, pegar o livro e começar a ler. Cristina é cega, não enxerga nada desde os 15 anos. É aí que entra Érica. A professora é ledora voluntária e dedica uma hora por semana para ler para usuários do Setor Braille da biblioteca materiais que não são adaptados (em áudio ou em alfabeto próprio).

Assim como Érica, cerca de 800 pessoas são cadastradas no programa de ledores voluntários, que existe desde 1969. “Os ledores são de suma importância porque, na maioria das vezes, não temos material didático adequado”, diz Cristina. Ela usa o serviço há cerca de 15 anos, e foi com o auxílio de ledores que conseguiu passar no vestibular. Agora, estuda quatro horas por semana na biblioteca, com a ajuda de voluntários que se revezam.

O Setor Braille tem 520 usuários cadastrados, dos quais cerca de 50 vão ao local frequentemente. Apesar do grande número de voluntários cadastrados, o coordenador do setor, Glicério Ramos Silva, diz que sempre é necessário encontrar novos ledores, já que muitas vezes quem se dispôs a ajudar não atende os chamados.
Por dia, são cerca de dez atendimentos, volume que dobra quando há editais abertos. A procura é maior para estudos, porque a biblioteca tem um vasto acervo de livros literários em braille ou gravados em CD ou MP3. Há também 62 filmes adaptados.

Cada voluntário lê entre uma e duas horas por dia, e os atendimentos são agendados. Silva diz que o perfil do voluntário é eclético. “Temos ledores de 14 a 80 anos”, conta.

Cadastro

Como fazer. Para ser voluntário, basta se cadastrar na Biblioteca Pública, levar documentos pessoais e informar a disponibilidade. Mais informações pelo telefone (31) 3269-1166.

Em conexão

Incentivo. Fazer dos 190 mil estudantes da rede municipal bons leitores é o objetivo do projeto Leituras em Conexão, lançado pela Secretaria Municipal de Educação, no último mês de maio. Desenvolvido com o intuito de difundir projetos e ações de leitura e escrita nas escolas municipais e instituições parceiras, o projeto vai distribuir vales-livro, incentivar a participação em eventos, como bienais, e há, ainda, a previsão de abertura das bibliotecas escolares nos fins de semana. (Rafaela Mansur)

Insistência

Conquistar jovens é mais difícil

Todo fim de semana a universitária Ludmila Duarte Elias, 24, se torna a ponte que une crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade ao mágico mundo da literatura. Integrante da Organização Não Governamental (ONG) Amar É Simples, ela é uma das voluntárias que leem para meninas e meninos com idade de poucos meses a 17 anos. “É muito bom levar a leitura a esses pequenos cidadãos”, afirma.
Para as crianças, a leitura é mais lúdica e cheia de interpretação. Já agradar as adolescentes é mais difícil. “No início, elas não gostavam de livro de jeito nenhum. Agora, até dão ideias de temas”, diz.

Persistência. A mudança aconteceu com muita persistência e com a ajuda de uma pedagoga, que apontou como conquistar a atenção desse público. “Contamos histórias motivadoras e fazemos contações dinâmicas, com a participação delas”, diz Ludmila.
Além de ajudar, a professora Érica Sarsur afirma que também aprende. “Quando a gente tem contato com uma realidade diferente da nossa, uma janela se abre. Eu me despertei para a questão da acessibilidade”, diz.

A professora afirma também que deixou de ter pena dos cegos. “A Cristina é incrível, superinteligente, não tem por que ter dó”, declara Érica. (APP)

Fonte: O Tempo

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