Biblioteca à espera de uma ‘canetada’

A estudante Regina Azevedo, 15, autora festejada da novíssima geração de poetas do RN, com dois livros publicados pela editora Jovens Escribas, nunca foi à Biblioteca Pública Câmara Cascudo por falta de oportunidade. O lugar entrou em declínio em 2007, desde 2008 foi feito um diagnóstico apontando problemas e necessidades e suas portas estão fechadas para o público há três anos – Regina se engajou no universo literário no final de 2012. “Sempre. O livro precisa cumprir seu papel: o de ser lido. As bibliotecas públicas vêm como incentivo. Uma verdadeira ponte, super necessária”, respondeu, ao ser questionada se ainda haveria espaço para bibliotecas nesses tempos de smartphone, Google e Wikipedia. Reação diferente — e irônica — teve um anônimo que pichou no tapume na fachada da biblioteca, com os dizeres: “Precisa mais abrir não, nós só quer TV”.

Apesar dos recursos disponíveis e dos trabalhos já iniciados, a obra da Biblioteca Câmara Cascudo permanece parada desde outubro do ano passado e seu retorno depende de um novo parecer do MinC (Foto: Magnus Nascimento)

Apesar dos recursos disponíveis e dos trabalhos já iniciados, a obra da Biblioteca Câmara Cascudo permanece parada desde outubro do ano passado e seu retorno depende de um novo parecer do MinC (Foto: Magnus Nascimento)

Com reforma parada desde outubro do ano passado, a maior biblioteca pública do Rio Grande do Norte, com seu acervo composto por mais de 100 mil volumes, aguarda um parecer do Ministério da Cultura autorizando a continuidade da obra orçada em R$ 1,5 milhão – sendo R$ 1,1 milhão do MinC e R$ 400 mil do Governo do RN. O prazo para conclusão da reforma era maio deste ano.

Detalhe: o recurso está todo disponível, depositado em conta específica, que só pode ser utilizado quando autorizado pela Diretoria de Programas Especiais de Infraestrutura Cultural (DINC), setor coordenado por Germano Andrade Ladeira. O gestor precisa assinar parecer técnico que avalia os ajustes no projeto executivo.

A reportagem do VIVER busca detalhes sobre o assunto desde o início da semana, mas esbarrou no tripé ‘informações incompletas, má vontade e o crônico jogo de empurra-empurra de responsabilidades’. É com esse expediente de descaso que o Ministério da Cultura vem tratando a reforma da BPCC, onde o tema “obras paradas” parece blindado e ninguém está autorizado a prestar qualquer esclarecimento sem passar pela assessoria de imprensa do MinC.

O procedimento é compreensível, porém o setor de Comunicação do Ministério precisa ser acionado pela DINC para dar retorno aos questionamentos: onde, afinal, o processo de reforma da Biblioteca está emperrado e quando a reforma será reiniciada?

Via-crúcis

Procurado pela TRIBUNA DO NORTE, o potiguar Gilson Matias, chefe da representação regional do MinC Nordeste, sediada no Recife, disse que “a orientação é que qualquer informação sobre obras deve ser fornecida pela assessoria de imprensa do MinC”. Ele afirmou estar acompanhando o caso se comprometeu em fazer contato com o diretor da DINC. “Estou na estrada vindo de Maceió (na tarde de ontem), e quando chegar no Recife ligo pra lá”, garantiu.

O gabinete da senadora Fátima Bezerra (PT), vice-presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, disse que a parlamentar irá se reunir “esta semana” com o ministro da Cultura Juca Ferreira para tratar desse e de outros assuntos.

A equipe que trabalha com Jéferson Assumção, novo diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do MinC, disse que também aguarda retorno da DINC. Mesma resposta dada por Rodrigo Bico, presidente da Fundação José Augusto, instituição responsável pela administração da Biblioteca: “A informação que tenho é que o processo está na DINC à espera de parecer técnico”, comentou o gestor-ator. Consultado, o secretário Jader Torres, titular da pasta Estadual de Infraestrutura (SIN), órgão responsável pela execução da obra reforçou: “O projeto da biblioteca passou por ajustes e aguarda parecer do Ministério da Cultura”.

Ajuste no projeto foi para baratear custos
Sabina Pires, atual diretora da Biblioteca Câmara Cascudo, atendeu ligação da reportagem do VIVER e informou que estava de férias. “Márcio Rodrigues pode te passar alguma informação mais atualizada”, disse.

Márcio Rodrigues garantiu que os recursos estão todos disponíveis, e contou que “quando começaram a reforma, viu-se que o valor seria insuficiente”. Márcio destacou que para dar conta do básico, foi proposta a substituição do piso de granito, mais resistente, por porcelanato. “Com a diferença no valor se cobriria despesas não previstas inicialmente como, por exemplo, derrubar uma parede e levantar outra. Toda modificação no projeto tem que passar pelo MinC, aguardamos um retorno do Ministério (desde outubro do ano passado) para dar seguimento ao trabalho”, explica.

“Quando enviamos um relatório sobre a precariedade da BPCC, o MinC mandou uma fiscal verificar a situação. Ela se assustou com o que viu, e achei que a partir dessa constatação iriam agilizar o processo”, disse Márcio Rodrigues.

Depoimentos

O VIVER conversou com três gerações de escritores para saber a importância de uma biblioteca pública na educação e formação intelectual das pessoas.

Iaperi Araújo, médico, artista plástico, escritor e presidente do Conselho Estadual de Cultura
“Fui algumas vezes à Biblioteca, olhar as raridades que dispunha. Entretanto, frequentei – e muito – a galeria de artes que funcionava por lá e lamento que a FJA tenha fechado a galeria de melhor visibilidade para os artistas do RN. Qualquer biblioteca é importante. Quando administrei a Fundação, de 1991 a 1995, institui o Sistema Estadual de Bibliotecas que instalou uma em cada município do Estado. Infelizmente hoje não existem mais de 100. O livro ainda seduz e nem todos os jovens tem acesso a internet, e mesmo se tivessem, a pesquisa de campo, garimpada página a página, acredito que satisfaça mais”.

Pablo Capistrano, filósofo, professor e escritor
“Frequentei muito a biblioteca nos anos 1980 e 90 antes de entrar na universidade. Durante os 1990 havia muitas exposições de pintura na galeria da biblioteca. Fui bastante a esses espaços entre meus 14 e 19 anos. Acredito que a maior parte do público-alvo das bibliotecas públicas seja aquele leitor (e estudantes) que não tem poder aquisitivo para acesso a livros nas livrarias, mas pra isso acontecer acho necessário duas coisas fundamentais: acervo variado e atualizado, não apenas técnico e didático; e uma articulação muito bem realizada com as escolas. Se a ida à biblioteca se transformar em um prazer, se garante o público adulto leitor do futuro”.

Regina Azevedo, 15, estudante do ensino médio e poetisa
“Nunca fui à Biblioteca, e um bom incentivo para ir são livros novos e antigos, de temas variados, sempre bem conservados. Tudo isso num verdadeiro espaço de convivência valorizado. O livro precisa cumprir seu papel, o de ser lido, e as bibliotecas públicas vêm como incentivo. Imagino como ideal, uma biblioteca atualizada, frequentada e limpa. Acredito ser muito mais prazeroso ler num ambiente agradável. Também acho importante que estejam disponíveis livros clássicos, mas tudo bem conservado.

Fonte: Tribuna do Norte | Yuno Silva

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