Em Minas, biblioteca forma booktubers e atrai jovens leitores

A princípio, parece difícil de imaginar, mas existe uma biblioteca pública brasileira em que câmeras, microfones, refletores, cenários e editores de vídeo dividem com os livros a atenção dos jovens leitores. É a Biblioteca Municipal Centenário, em Poços de Caldas, cidade que fica no sul de Minas Gerais e vem aproveitando o fenômeno cultural dos booktubers para formar adolescentes influenciadores de leitura, atraindo a atenção dessa geração para a literatura.

Para quem nunca ouviu falar, booktuber é o termo usado para denominar os youtubers (criadores de conteúdo para o YouTube) que produzem vídeos sobre livros. Nesse espaço, eles compartilham suas opiniões, indicações e curiosidades sobre as obras lidas. Desde o ano passado, a biblioteca integra a produção de vídeos literários em sua rotina, através do LAB Booktuber. A atividade é uma das diversas ações ligadas ao BiblioArte LAB, um laboratório comunitário de inovação em formação de leitores.

(Foto: Casa da Árvore/BiblioArte LAB)

(Foto: Casa da Árvore/BiblioArte LAB)

Assim que foram abertas as primeiras vagas para o LAB Booktuber, mais de 120 jovens e adolescentes de escolas públicas de Poços de Caldas inscreveram-se para as oficinas. Um reflexo do quanto essa faixa etária é vidrada por conteúdos em vídeo e, tendo o smartphone como ferramenta, anseia por criar e mostrar ao mundo seus próprios materiais audiovisuais. Iniciadas as aulas, vem a consciência de que é preciso ser um tanto quanto “profissional” para sobressair-se em meio a tantos concorrentes.

(Foto: Casa da Árvore/BiblioArte LAB)

Escola de booktubers

Nicolle de Oliveira tem 13 anos e conhece bem esse universo, já que é por meio do Youtube e outras redes sociais que ela vem ampliando suas experiências literárias. Para ela, é na linguagem dinâmica e descontraída dos booktubers que está o segredo de sua popularidade: “Eles são autênticos e falam conosco de igual para igual. Os booktubers que vejo são quase todos muito engraçados e usam o humor e as gírias que já estou acostumada”.

Nicolle faz parte da primeira turma de booktubers formados no BiblioArte LAB e hoje é uma das atrações no canal do Youtube da revista eletrônica Página 9 3/4 (www.youtube.com/c/pagina934), onde produz vídeos sobre sua maior paixão, as fanfics (versões escritas, adaptadas ou recriadas por fãs a partir de um livro, série ou filme). Seu objetivo? Alcançar ao menos parte da audiência que possuem referências nesse segmento, a exemplo dos canais Mundo Paralelo (mais de 264 mil inscritos no Youtube) ou Cabine Literária (146 mil inscritos).

O itinerário de aprendizagem desses jovens tem sido orientado pela equipe da ONG Casa da Árvore, entidade realizadora do projeto BiblioArte LAB. Os encontros são mediados pela produtora e estudante de publicidade Letícia Deparolis e pela psicóloga Priscila Alexandre, que hoje dedica-se por completo ao blog e canal “As meninas que leem livros” – sua experiência na concepção, produção e edição de vídeos está sendo hoje compartilhada com os adolescentes do LAB Booktuber.

“Está sendo uma experiência engrandecedora, de troca de conhecimentos. Os adolescentes têm toda uma bagagem de experiências particulares de leitura para trazer durante as discussões. Eu estudo para transformar esse conhecimento em algo que eles possam utilizar durante as oficinas e, posteriormente, reproduzirem por conta própria”, descreve Priscila.

Ainda segundo Priscila, para ser um booktuber de sucesso, não basta só ligar a câmera e deixar rolar. Pesquisar com carinho temas de interesse, elaborar roteiros para as gravações e dominar as técnicas de edição no computador são passos indispensáveis. “Um dos principais conceitos que eles precisam aprender é o da resenha, que vai muito além de uma pura e simples opinião. É necessário transformar o que eles já conhecem em algo crítico, para que seja possível a eles analisarem o conteúdo que recebem. Em pouco tempo, já percebi que eles passaram a refletir melhor sobre aquilo que consomem”, explica.

(Foto: Casa da Árvore/BiblioArte LAB)

Inovações do mercado às políticas públicas

A experiência que vem sendo desenvolvida na Biblioteca Municipal Centenário aponta para novas tendências. Para Cleide Fernandes, diretora do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas Municipais de Minas Gerais, “atualmente, as bibliotecas públicas estão passando por grandes transformações. A comunidade está exigindo que a biblioteca passe a ser vanguarda na sua área e a energia dos jovens é fundamental nesse processo. A participação deles na programação, dando ideias e organizando atividades, tem sido uma marca desse novo papel”, confirma.

“A biblioteca é um lugar de encontros: do leitor com os livros, do leitor com o bibliotecário e do leitor com outros leitores e demais mediadores de leitura. Um lugar de encontros e de participação. Nesse sentido, se a linguagem que os jovens falam está relacionada com as novas tecnologias, é nessa linguagem que os bibliotecários devem falar”, complementa Cleide.

Muito antes das políticas públicas, o mercado editorial já havia aberto os olhos para esse nicho, seja publicando obras escritas por quem se projetou como booktuber, seja pautando os lançamentos pelos seus gostos. A editora Flávia Lago trabalha na Plataforma21, o selo jovem da V&R Editoras, e comenta o quanto esses influenciadores digitais servem de termômetro para o mercado editorial: “As preferências dos booktubers podem servir de parâmetro para as escolhas dos gêneros e temas a serem discutidos, bem como nas apostas em novas categorias. Editoras não fazem grandes pesquisas de mercado. Sendo assim, resenhas em blogs ou vídeos passaram a ser o ‘termômetro’ para muitas delas”.

Ainda segundo Flávia, diante de um lançamento, principalmente no segmento de young adults (ou ficção infanto-juvenil), uma opção mais proveitosa para uma estratégia de divulgação e marketing é focar-se nesses influenciadores digitais, ao invés de apostar nos canais tradicionais – caso dos jornais e revistas de grande circulação.

Sobre o BiblioArte LAB

Assim como o universo dos booktubers, outras dimensões da cultura digital estão servindo de base para ações de inovação em práticas de leitura e formação de leitores no BiblioArte LAB (www.facebook.com/biblioartelab). O projeto é uma tecnologia social desenvolvida pela ONG Casa da Árvore (www.casadaarvore.art.br) para ressignificação de bibliotecas públicas, escolares e comunitárias. Ao longo do ano, o laboratório abriga atividades formativas gratuitas, como LAB Hiperespaços de Leitura, LAB GIFs Literários, LAB Robótica Poética e LAB O Viral da História.

“Nosso objetivo aqui é atrair jovens leitores e estimular o protagonismo e o desenvolvimento de habilidades artísticas, tecnológicas e de empreendedorismo criativo, para a formação de uma rede de influenciadores de leitura”, destaca Aluísio Cavalcante, coordenador geral do projeto. Dentro do BiblioArte LAB, os adolescentes também desenvolvem seus empreendimentos culturais, como a revista eletrônica literária Página 9 3/4 (www.revistapagina934.art.br), a intervenção urbana Territórios Literários (www.territóriosliterários.net) e o aplicativo de leitura LEIA-ME (em breve na Google Store). Os resultados e o impacto social da iniciativa renderam ao projeto o Prêmio A Rede.Educa (2016). Até o momento, mais de 450 jovens já foram beneficiados.

Fonte: Casa da Árvore | BiblioArte LAB

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