Comissão de Bibliotecas Escolares do CRB-6 avalia reportagem sobre mediadores de leitura

A partir da leitura de uma matéria presente na edição de março da revista Nova Escola, da editora Abril, a Comissão de Bibliotecas Escolares do Conselho Regional de Biblioteconomia 6º Região (CRB-6) apresentou seu posicionamento a respeito dos temas abordados no texto. Com o título de “Assim não dá: colocar um profissional só para fiscalizar a biblioteca”, a matéria trata de assuntos representativos, que mobilizam diversos pesquisadores da área.

Abaixo, você confere uma carta aberta da Comissão de Bibliotecas Escolares aos jornalistas, pesquisadores e bibliotecários interessados pelo tema.

“Muito espanto nos causou a matéria de Raissa Pascoal sobre o trabalho de mediação da leitura em bibliotecas escolares e salas de leitura. A repórter equivocou-se nos conceitos e, em nossa opinião, não fez uma correta seleção dos entrevistados para tratar do assunto.

Inicialmente, esclarecemos que salas de leitura e bibliotecas não são a mesma coisa. Na primeira, acumulam-se livros e sua configuração é similar à de uma sala de aula. Já a biblioteca traz uma diversidade de títulos, previamente selecionados e tratados por um profissional formado em Biblioteconomia que, além de organizar o acervo, deve desenvolver ações de integração com o coletivo da escola.

Por isso, esse é o objetivo que precisamos atingir: proporcionar à instituição de ensino um espaço de qualidade, cujo pilar é uma política pública de acesso à informação e promoção da leitura. Comparar salas de leituras com bibliotecas é temerário, pois nivela por baixo o potencial do espaço. É como entregar ‘gato por lebre’ e não esclarecer, adequadamente, a real função e relevância das bibliotecas escolares à sociedade. O que ocorre é que o gestor, ao optar por reduzir custos não contratando um profissional bibliotecário e deixando de adotar infraestrutura física, mobiliário, tecnologia e acervo diversificado, está abrindo mão de investimentos que são cruciais a esse formato de espaço e para que ele cumpra o real papel de biblioteca.

Quanto à capacidade do profissional, acreditamos que um trabalho bem-feito de recrutamento e seleção seja capaz de selecionar um bibliotecário com o perfil que melhor se encaixe nos propósitos do espaço. Percebemos que a insinuação da reportagem é a de que não existem profissionais da área capacitados e adequados para fomentar a leitura no ambiente escolar.

Finalmente, lamentamos que a jornalista e os entrevistados desconsiderem a existência de estudos e pesquisas no campo da Biblioteconomia Escolar e trabalhos desenvolvidos por pesquisadores, como o Grupo de Estudos em Biblioteca Escolar (GEBE) da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), além de iniciativas técnicas e acadêmicas específicas e direcionadas a esse campo, tais como os trabalhos de pesquisadores das universidades de Marília e de Ribeirão Preto.

Se for do interesse da publicação apresentar uma reportagem que prime pela imparcialidade e credibilidade jornalística, colocando os dois lados da questão e permitindo a todos os setores envolvidos no tema o direito de defesa, posicionamento e argumentação técnica e científica pertinente ao tema, os representantes da Comissão Temporária de Bibliotecas Escolares do CRB-6 se disponibilizam a esclarecer, de forma coerente, os tópicos pontuados neste parecer. Entendemos que tal iniciativa da revista e de sua respectiva editora seria uma maneira de tratar a informação com mais transparência e responsabilidade. A reportagem aqui avaliada desvaloriza e desrespeita os profissionais de biblioteconomia, que lutam, arduamente, por uma qualificação das bibliotecas escolares brasileiras e possuem um papel primordial na melhoria da educação.”

Comissão Temporária de Bibliotecas Escolares
Conselho Regional de Biblioteconomia 6º Região

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12 Comments

  1. Geórgia Costa
    Posted 28 de março de 2016 at 20:53 | Permalink

    Ótima resposta!!!

  2. Rejane do Nascimento
    Posted 28 de março de 2016 at 23:21 | Permalink

    Parabéns à comissão pela resposta digna.

  3. NERCIELENE
    Posted 29 de março de 2016 at 10:49 | Permalink

    REALMENTE UMA REPORTAGEM MAL FORMULADA, MERECE UM BOM ESCLARECIMENTO
    POR PARTE DO NOSSO CONSELHO, PARABÉNS MAIS UMA VEZ, ELUCIDOU SEM AGREDIR

  4. Claudia Alcântara Ti
    Posted 29 de março de 2016 at 11:27 | Permalink

    Resposta apropriadíssima para uma reportagem rasa sobre bibliotecas escolares, além de não identifificar sequer o profissional bibliotecário.

  5. osmar weyh
    Posted 29 de março de 2016 at 12:28 | Permalink

    Sensacional.
    Mais uma vez estão de parabéns.

  6. Lúcia
    Posted 29 de março de 2016 at 17:41 | Permalink

    Parabéns CRB!!

  7. Claudio Marcondes
    Posted 29 de março de 2016 at 19:01 | Permalink

    Solidarizo com os colegas do CRB6, pela resposta a matéria publicada na Revista Nova Escola, pois trata-se de uma área (Biblioteca Escolar) de suma importância para sociedade.

  8. Valdeci Maria Clemen
    Posted 29 de março de 2016 at 19:31 | Permalink

    Esclarecimentos perfeito. Parabéns CRB.

  9. Jussara Feitosa
    Posted 30 de março de 2016 at 9:22 | Permalink

    Bibliotecários em ação
    Uma resolução da Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais determinou que o professor formado em Biblioteconomia deve ser o profissional habilitado para estar à frente das bibliotecas da rede estadual de ensino. Até que enfim. Isso já era mais que esperado. Muitos professores bibliotecários designados para a função.
    Geralmente, em muitas escolas, a realidade era que os profissionais que ficavam encarregados de exercer uma função na biblioteca eram professores em afastamento da sala de aula para aposentar, professores excedentes, ou ainda, doentes, depressivos e até com síndrome do pânico, já que não conseguia enfrentar o dia a dia da sala de aula com os alunos. Essa é a imagem do bibliotecário na escola, estigmatizada, como aquela pessoa que precisa descansar e que não pode trabalhar com o aluno.
    Muitas escolas no estado já possuem uma biblioteca, sobretudo as bibliotecas escolares estaduais têm acervo doado pelo governo, com livros bem escolhidos, com títulos premiados para compô-los, onde se encontram desde os clássicos universais estrangeiros e brasileiros, como também os best-sellers atuais, além da literatura infantil. São coleções literárias adquiridas também por meio dos projetos do governo federal e de instituições comerciais que oferecem oportunidades para formação de acervos e de leitores.
    O que nos instiga como profissional bibliotecário é ver que chegando à frente dessas bibliotecas encontramos salas que são apenas depósitos de livros sem nenhum tratamento, misturados e colocados em prateleiras desordenadamente, além de paredes de livros didáticos já descartados enfileirados, que enchem prateleiras e vão até no chão, e nós somos convidados a trabalhar com a mediação de leitura e de projetos de comemoração de datas festivas, onde há a necessidade de muita habilidade manual e artística para confecção de murais e enfeites necessários para a estética escolar de acolhimento e de informação. De acordo, funções necessárias e precisam ser exercidas, afinal, estamos na escola para somar. Mas e o tempo necessário para o serviço técnico de organização do acervo? Isso parece sempre superficial sob o ângulo de um leigo e até mesmo dos colegas professores que esperam nossa colaboração nos projetos de leitura propostos na escola .
    O olhar de um profissional de Biblioteconomia, mesmo com a formação pedagógica, é diferente do olhar do professor. Por mais organizada que seja uma pessoa, a capacidade de organizar uma biblioteca requer um profissional. Que bom que já começaram a abrir portas para que o profissional bibliotecário esteja à frente das bibliotecas escolares, mas é necessário que entendam que este profissional também é alguém preparado para uma função que requer local adequado, equipamento e mobiliário apropriado o que não é ainda a realidade por eles encontrada.
    É muito importante a compreensão de todos nesse primeiro momento de atuação, pois em Minas Gerais, só agora em 2016 nós bibliotecários estamos entrando para trabalhar nas bibliotecas escolares e propondo simplesmente que as bibliotecas possam ser organizadas, limpas, tratadas como merecem ser. Afinal, como fazer a mediação de leitura, como fazer a distribuição dos livros didáticos e como emprestar os livros sem controle? Como indicar os livros, se não foram identificados, listados, carimbados, registrados, classificados, catalogados, organizados dentro de um sistema para facilitar o acesso? Um dos principais objetivos de uma biblioteca não seria facilitar o acesso aos materiais e às informações?
    Queremos sim partilhar o mundo do conhecimento por meio da leitura com todos que estão ao nosso redor e estamos preparados para isso. Estamos ocupando um espaço que é nosso por direito e queremos trabalhar com dignidade.

    Jussara Feitosa de Santana Gomes – CRB-6/1094

  10. Clarissa Silva
    Posted 11 de abril de 2016 at 10:58 | Permalink

    Muito objetiva e lúcida a resposta do CRB sobre o artigo da revista. A quem interessaria continuar nossa educação como está? Por que afirmar de forma tão leviana que o bibliotecário é apenas um fiscalizador de livros? O bibliotecário pode atuar em conjunto com outros profissionais em biblioteca mas ele deve sim estar neste local e contribuir para que a biblioteca funcione como espaço de aprendizagem e não apenas um depósito de livros. Vejo muitos absurdos nas publicações da Editora Abril, mas por se tratar de uma revista na área de educação (apesar de não ser um periódico científico) eu sinceramente esperava mais…

  11. Ana
    Posted 14 de abril de 2016 at 1:04 | Permalink

    Excelente resposta!!!!

  12. Kátia
    Posted 14 de abril de 2016 at 10:28 | Permalink

    Atuei como bibliotecária escolar em uma pequena cidade do interior de SP, fui com uma proposta dinâmica e integrativa, eu buscava a participação em reuniões pedagógicas (ATPC), pena que houve completa rejeição à minha presença, sendo meu trabalho sabotado em várias frentes, cito um exemplo, a base de dados que elaborei com dados catalográficos do acervo da biblioteca escolar com mais de 6.000 títulos “sumiu” de um dia para o outro e não consegui descobrir o que aconteceu. A própria Secretária da Educação do Município (ex-diretora de escola) questionava meu salário. Nossa, foi uma experiência incrível, percebi que a Educação carece de pessoas que realmente enxerguem o bem maior, e não apenas um ambiente de concorrência e competição. Quem atua nas escolas de ensino médio e fundamental sabem do que estou falando, é um querendo colocar entrave o trabalho do outro, e não querendo o que seria natural que é construir com o coletivo. É uma pena, mas este é o papel de fundo que constrói o cenário do país hoje.

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