Entrevista: Professora Marcia Heloisa Tavares

Marcia Heloisa Tavares: “Sobre o panorama da graduação e da pós: acho complicado dar conta das duas pontas com este modelo”

Marcia Heloisa Tavares

Professora Associada e pesquisadora do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal Fluminense, Marcia Heloisa Tavares de Figueredo Lima fala dos desafios da docência e de sua trajetória acadêmica nas áreas de Biblioteconomia e Ciência da Informação. Tendo pesquisa premiada na XIV edição do Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação de 2013, a professora conta as etapas de sua pesquisa que envolve questões referentes ao direito à informação e responde algumas questões sobre o tema.

Rodolfo Targino: Como você se apresenta?

Marcia Heloisa: Minha graduação foi em Biblioteconomia. Hoje em dia me apresento como professora de graduação de Biblioteconomia e Arquivologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) desde 1994, considerando que desde meu retorno – após afastamento para cursar o doutorado – sempre fiquei responsável por disciplinas do núcleo comum dos dois cursos: Fundamentos Teóricos da Informação I, algumas vezes o Fundamentos Teóricos da Informação II, Metodologia da Pesquisa I e, a partir de 2013, Aspectos Legais dos Processos Informacionais e do programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFF, atuando por enquanto no mestrado. Estamos solicitando à CAPES oferecer o doutorado. Também cooperei no grupo que formulou a proposta, mas estamos aguardando o credenciamento pela CAPES. Antes de ser professora, fui bibliotecária por 12 anos: trabalhei na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre por sete anos e no Tribunal Regional Federal da 2º Região aqui no Rio por cinco anos.

R. T.: Você poderia nos contar um pouco de sua trajetória acadêmica na área de Biblioteconomia?

M. H.: Eu saí da faculdade a FABICO/UFRGS com vontade de dar aulas na própria faculdade. Eu tive alguns excelentes professores – alguns falecidos – mas confesso que não tinha a menor noção da função da pesquisa ligada à docência. Pensava no trabalho em sala de aula. Um curso sobre curriculum vitae oferecido como extensão na UFRGS por Jussara Pereira Santos (hoje é professora da FABICO, mas na época era bibliotecária da UFRGS) me despertou para a importância do currículo acadêmico. Eu captei naquela semana uma necessidade de ser rigorosa no registro das minhas atividades, da participação em estudo continuado e congressos. Trabalhar como bibliotecária universitária de uma área de pesquisa como as Biociências – onde atuei nos sete anos – e ainda no setor de periódicos, entendi a importância de publicar. Mas eu não escrevi muito naquele período. Sempre achei que se fosse para escrever tinha que ter um tema instigante e que o trabalho deveria ser contributivo. Assim, naqueles anos escrevi alguns trabalhos para o Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação (CBBD) fazendo relatos – tinha uma função de registro mesmo – das atividades que eu fazia.

E eu pensei na época da formatura em 1982: “eu tenho que ter experiência para poder apresentar conteúdo para os alunos, se um dia der aulas. E tenho que ter um problema, um tema de pesquisa para o mestrado. Um tema do mundo real”.

Em fins de 1988 apareceu a oportunidade de uma especialização promovida pelo Plano Nacional de Bibliotecas Universitárias que era coordenado por Yone Chastinet, diretora do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) à época. Eu prestei exame. Passei em 2º lugar entre bibliotecárias de todo o Brasil – a primeira foi a também gaúcha Miriam Vieira da Cunha – que acaba de coordenar o XIV Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB) pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que acabou desistindo. Nesse curso eu fui aluna da professora Maria Nazaré de Freitas Periera do IBICT e me apaixonei por aquela docente empolgadíssima e decidi: “vou fazer este mestrado no Rio de Janeiro, o mestrado do IBICT”. Na época, as outras duas opções eram a Universidade de Brasília (UNB) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ambas muito voltadas para Administração de Bibliotecas e as minhas preocupações eram filosóficas e teóricas. O IBICT, com Ciência da Informação, sempre me pareceu um abrigo para estas questões. Em fins de 1989, eu já havia iniciado a negociação para solicitar afastamento por dois anos para vir fazer o mestrado. E apareceu o primeiro grande concurso para bibliotecário do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª região que atende a região sul. Eu passei em 9º lugar, mas só eram cinco vagas. Na véspera do Natal de 1989, um telegrama me oferece vaga pelo concurso para o Rio de Janeiro. O salário era muito maior que o da UFRGS e pensei: “essa mudança é muito próxima ao que eu queria – queria fazer mestrado no Rio – vou um ano antes do previsto, faço meu mestrado trabalhando (não deve ser impossível) e, enfim vou melhorar de vida financeiramente, pelo menos. Se tudo der errado, faço outro concurso, depois do mestrado”. Eu estava então com 29 anos e achava a minha vida parada demais, certinha demais: emprego público, apartamento próprio… Era a hora de “dar uma bagunçada”, mas uma “bagunçada” toda “arrumadinha”, com emprego público e perspectivas acadêmicas. Era uma aventura: nova cidade, novo emprego, a seleção para o mestrado dali a um ano, digamos uma “virada autossustentável”.

No fim do primeiro ano do mestrado, veja só: só os créditos de aulas completos, apareceu um concurso gigante na UFF para mais de uma centena de vagas – concurso para professor auxiliar – e eu tinha tido uma aula com a professora Vera Breglia, que na época auxiliava como parte do grupo de pesquisa a professora Heloisa Tardin Christóvão no IBICT. Eu cheguei ao antigo Centro de Estudos Gerais (CEG) com meus documentos e levei minha pasta de curriculum vitae com documentos originais para conferência. Quando entreguei a ficha alguém da seleção me disse: “esses certificados que você tem aí valem todos, todos os congressos e cursos de curta duração”. Resumindo: entreguei minha pasta com os originais e preenchi a mão toda a lista dos cursos e congressos na última hora – o formulário não me parecia claro quanto a isto. Passei em terceiro lugar, atrás da professora Maria Luiza A. Campos e Lídia Silva de Freitas. E eu queria passar em terceiro lugar, mesmo, para dar tempo de terminar o mestrado. Eu ganhava muito melhor no TRF do que passaria a ganhar na UFF como auxiliar, mas sabia que como professora assistente e gratificação do mestrado incluída no salário, a perda seria menor. De fato, o concurso feito em final de 1991. Valia por dois anos na época. Hoje, em geral, os concursos valem por um ano e foi revalidado por mais dois anos, de modo que em fins de 1994 fui chamada pela UFF. Dali para frente foram aulas e mais aulas, extensão, orientações de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), casamento, nasceu meu filho mais velho. Somente na volta do doutorado – já com dois filhos – é que registrei o segundo projeto de pesquisa e comecei a escrever mesmo (o primeiro projeto de pesquisa correspondi à pesquisa de tese de doutorado). Mesmo assim, apresento trabalhos no ENANCIB com relativa regularidade, mas não submeto muitos artigos a periódicos.

>> Leia a entrevista na íntegra

Fonte: Revista Biblioo

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