Escritores de primeiras letras

Crianças cercadas por livros despertam cedo para a escrita e até publicam livros

Válter ao lado da irmã, Júlia. Os dois já lançaram livros e querem escrever mais publicações (Foto: André Nery/JC Imagem)

Válter ao lado da irmã, Júlia. Os dois já lançaram livros e querem escrever mais publicações (Foto: André Nery/JC Imagem)

Os irmãos Júlia Kristeva, de 9 anos, e Válter José, 6, gostam de colocar no papel o que observam pelo mundo. Filhos do professor Samuel Lira e da pedagoga Edinez Lira, os dois cresceram passeando entre os livros da pequena biblioteca particular do pai. O gosto pela leitura aflorou e, com apenas cinco anos, Júlia lançou uma coletânea de contos, batizada de Minhas Historinhas. Acompanhar a irmã nos lançamentos inspirou Válter a criar seu próprio livro, que foi publicado no último dia 17. Mas os irmãos garantem que não faltam ideias para mais publicações.

“Uma história se chama Meu Castelo de Diamante, outra foi inspirada na fábula da cigarra e a formiga, mas Júlia personalizou e fez um final diferente, brincou com os papéis da história original”, conta Samuel. Ele lembra que a família ficou surpresa quando a menina decidiu escrever um livro. Minhas Historinhas reúne sete pequenos contos e demorou pouco mais de quatro meses para ficar pronto. “Deixamos ela bem a vontade para criar as histórias no tempo dela, sem pressão, só ajudamos a digitar os textos”.

Para os mais velhos, a menina também deixou a responsabilidade de procurar uma editora e um ilustrador. “Mas tudo foi acompanhado por ela. Júlia participou do processo e opinou sobre os desenhos da ilustradora Regina Carvalho”, garante o pai. Após o lançamento do livro Minhas Historinhas, pela CCS Gráfica e Editora, a menina já foi convidada para vários eventos. Em 2012, ela marcou presença na edição infantil da Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliportinho). Um ano depois, com sete anos de idade, fez uma tarde de autógrafos em Genebra, na Suíça. “Viajamos em dezembro de 2013. As crianças brasileiras que moram lá ficaram super interessadas no livro e Júlia estava muito feliz”, lembra Samuel.

O sucesso da irmã inspirou os primeiros passos de Válter José no mundo literário, com apenas seis anos. “Mas com ele foi diferente porque Válter já digita e mexe no computador”, comenta o pai. Samuel também lembra de situações engraçadas como quando o menino pedia ajuda para digitar rapidamente um conto durante a noite para não esquecer a ideia que tinha tido. Construída durante 10 meses, a publicação foi batizada de O Menino que Faz História e reúne 12 contos inspirados nas observações do autor. “Ele escreveu sobre coisas que aconteciam com ele e com os amigos. Nós moramos perto da Arena Pernambuco, então ela também virou palco de uma história”.

Com Válter, os pais decidiram repetir a equipe de edição e ilustração que participou do livro de Júlia, mas a preocupação foi deixar tudo de acordo com as expectativas do menino. “Quando acabamos eu perguntei se ficou como ele imaginou e a resposta foi positiva”, diz Samuel. Mas Válter e Júlia querem mais. Os dois confirmam que já têm muitas ideias na cabeça para mais livros e Júlia complementa com o título provisório da futura publicação: A Pedra Mágica.

Quem também já tem ideias na cabeça para mais histórias é Marina Negromonte, 7. Em maio ela lançou o primeiro livro, entitulado Marina e o passarinho perdido. A publicação foi uma parceria da menina com o pai, o jornalista Marcelo Cavalcante. Ele comenta que a intenção foi eternizar as histórias que a filha cria. “Eu perguntei se ela queria contar uma história para eu colocar em um livro e aí ela veio com esse enredo do passarinho Mel, que se perdeu da dona e tentou fazer amizade com outros animais”. Em cima do conto, Marcelo desenvolveu rimas. “É um livro escrito o quatro mãos. Ela me contou uma história, eu mantive e só fiz desenvolver mais para que tudo tivesse uma lógica”.

Marina e o passarinho perdido foi o primeiro título infantil da editora cartonera Pé de Letra, que produz livros com papelão. O trabalho artesanal casou com a proposta de Marcelo, que não queria se prender às tiragens das editoras tradicionais. “As ilustrações também foram criadas por Marina e são em preto e branco para que as crianças pintem como elas quiserem. Pensamos em tudo para que todas se divertissem criando e escrevendo”, finaliza o pai.

O que Júlia, Válter e Marina têm em comum são pais que estimulam a leitura. Além de abrir a biblioteca particular para os filhos, Samuel Lira conta que todas as noites lê histórias para os dois antes de dormir. Brincar com livros sempre foi a diversão de Marina, que tinha exemplares de plástico na banheira mesmo antes de ser alfabetizada. “Quando a gente faz com que as crianças se divirtam lendo e escrevendo, a possibilidade de ter um mundo melhor é muito grande, porque vamos ter jovens conscientes na hora de fazer escolhas”, finaliza Marcelo.

Bibliotecas infantis são espaços fundamentais para a formação de novos leitores. Além de apresentarem o universo literário, esses locais devem usar a interatividade para tornar lúdico o momento da leitura. “Com as novas tecnologias o conceito da biblioteca infantil mudou e hoje nós procuramos agregar jogos, brinquedos, vídeos e equipamentos eletrônicos à experiência da leitura”, explica a biliotecária Djaneide Gomes, responsável pelo espaço infantil da Biblioteca Pública de Pernambuco, temporariamente fechado para reforma.

Bibliotecas voltadas para o público infantil precisam ser lúdicas

Para atender ao público diferenciado, todo o ambiente das bibliotecas infantis precisam ser pensado para os pequenos. As estantes devem estar na altura mediana das crianças e não podem ter pontas, para diminuir a possibilidade de acidentes. “As cadeiras precisam ter uma fixação boa no chão e o piso não pode ser muito deslizante, para priorizar a segurança”, esclarece a bibliotecária. Ela ainda afirma que em uma biblioteca inclusiva também há preocupação em oferecer livros em braile e condições de acesso e movimentação para cadeirantes.

Segundo Djaneide, o espaço precisa passar para a criança a mensagem de que ler é um momento de lazer e descontração. Como aliado, surge a contação de histórias. Ver a encenação auxilia as crianças a dar asas a imaginação, porque muitas vezes elas não conseguem abstrair o conteúdo de um livro. “Quando um contador traz elementos da história ele ajuda a criança a construir o enredo na mente e também atiça a curiosidade sobre o que tem dentro do livro”.

A escolha dos títulos também deve receber atenção especial. “O acervo é construído a partir dos usuários da biblioteca, ele deve atender aos interesses dos usuários. Caso contrário, a biblioteca vai ser formada só um amontoado de livros que ninguém se interessa em ler”, conclui a bibliotecária.

Fonte: JC Online

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