Faltam livros nas escolas brasileiras

Lei determina que cada escola do país tenha uma biblioteca, mas apenas 37% delas cumprem a exigência

O romance “O menino do pijama listrado”, de John Boyne, despertou a paixão de Sidineia Chagas, 25 anos, pela leitura quando ela cursava, em 2007, o 1º ano do ensino médio na Escola Estadual Professora Renata Menezes dos Santos. A jovem mora em Parelheiros, região do extremo sul da capital paulista, que lidera rankings de violência e de baixo desenvolvimento humano.

O encontro entre Sidineia e a história de Boyne ocorreu quando cada aluno de sua classe recebeu uma caixa com quatro livros. O mesmo encanto com os títulos não se estendeu a boa parte de seus colegas – ela viu páginas virarem dobraduras ou munição para “guerras” de bolinhas de papel. A atitude dos jovens reflete o descaso com que a própria escola tratava a leitura.

Essa realidade precária inspirou Sidineia e outros 30 jovens a criarem a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura. Fundada em 2009, em parceria o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac), o equipamento conta com a ajuda de instituições públicas e privadas e oferece um acervo de quatro mil exemplares.

Iniciativas como a de Parelheiros surgem para inspirar o protagonismo social no aprimoramento do ensino e, consequentemente, fomentar o desenvolvimento de novas políticas educacionais do estado. A Lei 12.244, sancionada em 2010 determina que, até 2020, todas as escolas do Brasil tenham uma biblioteca. Os números, porém, mostram que dificilmente a obrigatoriedade será cumprida no prazo. O Censo Escolar de 2015 mostra que somente 37% das escolas públicas e privadas de educação básica (da educação infantil ao ensino médio) têm biblioteca.

Bibliotecas são espaços férteis para atividades que estimulam a leitura, a narração de histórias e a criatividade (Foto: Divulgação)

Bibliotecas são espaços férteis para atividades que estimulam a leitura, a narração de histórias e a criatividade (Foto: Divulgação)

Este, no entanto, é apenas um dos aspectos que ilustram a falta de incentivo à leitura na educação brasileira. As poucas bibliotecas existentes na rede pública costumam funcionar de forma muito deficiente. Entre 11 escolas escolhidas aleatoriamente na cidade de São Paulo, apenas duas mantinham bibliotecas em funcionamento em período integral e três ficavam abertas eventualmente. Em seis escolas, alunos não tinham livre acesso ao espaço onde ficam os livros. O motivo mais comum é a falta de um supervisor no local.

Isso não ocorreria se a lei fosse respeitada. As bibliotecas escolares devem contar com um bibliotecário preparado para organizar, abastecer e gerenciar o acervo. Na contramão do que diz a lei, em 2009 a rede estadual de ensino de São Paulo passou a substituir as bibliotecas por salas de leitura. Diferentemente das primeiras, essas salas em geral são espaços informais, com acervo diminuto, iluminação inadequada e organização inapropriada para atividades relacionadas ao estudo e à leitura. Outra diferença fundamental da sala de leitura é que ela dispensa a presença de um profissional preparado para receber os alunos.

A lei que torna obrigatória a existência de bibliotecas baseia-se em evidências pedagógicas e científicas sobre os benefícios da leitura para o cérebro da criança e seu desenvolvimento como estudante e cidadão. Bibliotecas são espaços férteis para atividades que estimulam a leitura, a narração de histórias e a criatividade. Por isso, devem ser valorizados.

Representatividade

O Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6) tem se empenhado em defender as bibliotecas escolares, através de campanhas de conscientização, intermediação com autoridades e políticos, fiscalização nas instituições de ensino e, sobretudo, por meio das ações da Comissão de Bibliotecas Escolares.

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