Galeno Amorim fala sobre livros, cultura e política

Galeno Amorim

Ele criou a Feira do Livro e 80 bibliotecas comunitárias em Ribeirão Preto. Seu sucesso e capacidade o fizeram voar voos mais altos e colaborar com a cultura em nível nacional. De volta à sua terra, Galeno traz consigo as experiências vividas e a vontade de contribuir com o futuro de Ribeirão Preto. Acompanhe a entrevista que ele concedeu para O Calçadão.

O Calçadão – O senhor é cofundador da Árvore de Livros (que foi selecionada pela Fundação Lemann como uma das seis startups de tecnologia que vão ajudar a revolucionar a educação brasileira nesta década) e Diretor Geral do Observatório do Livro. Quais os objetivos desses trabalhos? Há algum trabalho junto a alunos matriculados nas redes públicas de ensino?

Galeno – A Árvore, presente em 600 cidades e em todos os estados brasileiros, está ajudando a alavancar a leitura no Brasil a partir de dispositivos digitais como os celulares, tablets, notebooks e computadores. É utilizado principalmente por adolescentes e jovens e o foco é, sobretudo, alunos das redes públicas. É mais barato e melhora o acesso aos livros (todo o acervo é acessível, por exemplo, a alunos surdos ou cegos). O primeiro piloto foi justamente em Ribeirão Preto, com adolescentes de baixa renda do Complexo Aeroporto. Em alguns lugares, o empréstimo de livros chega a ser oito vezes maior. É verdadeiramente uma revolução na palma da mão! Já o Observatório do Livro e da Leitura desenvolve estudos e pesquisas para tentar fazer melhorar a leitura no Brasil.

O Calçadão – O senhor teve a oportunidade de ter sido Presidente da Fundação Biblioteca Nacional entre 2011 e 2013. Como foi essa experiência? Quais as principais ações que conseguiu implementar?

Galeno – Foi uma experiência fascinante. A Biblioteca Nacional do Brasil é uma das oito mais importantes do mundo, com mais de 8 milhões de livros, fotografias e documentos históricos. É mais velha do que a República e o Senado. Criei, nesse período, a Hemeroteca Brasileira, colocando na internet para os pesquisadores dezenas de jornais e revistas brasileiros até o início do século 20, o que colocou a instituição na era digital e no futuro, sem descuidar do passado. Abri, pela primeira vez em 200 anos, as portas da Biblioteca Nacional nos finais de semana e feriados até para que ela pudesse ser visitada e conhecida pelas pessoas mais pobres, que trabalham durante a semana e não têm como perder dia de serviço para ir até lá. Também viabilizei um acordo financeiro de R$ 32 milhões, a fundo perdido, com o BNDES, para o início imediato das obras de restauro e construção de uma segunda sede da Biblioteca Nacional, deixando dinheiro em caixa para meu sucessor. Como nesse período a Fundação passou a responder pelas políticas do livro e leitura, implantei o Programa do Livro Popular (até R$ 10,00), criei também um programa que, pela primeira vez na história do Brasil, beneficiou diretamente milhares de bibliotecas em todas as regiões do país. Uma das ações de grande impacto dentro e fora do Brasil foi o Programa de Internacionalização da Literatura Brasileira, com um programa intenso de bolsas de tradução, intercâmbio de tradutores e homenagens ao Brasil e sua literatura nos principais eventos literários do mundo.

O Calçadão – O senhor foi o criador da Feira do Livro de Ribeirão Preto, junto com o Prefeito Palocci, em 2001. De onde surgiu a ideia? Como foi o processo de implementação do projeto?

Galeno –  Fazer uma boa Feira do Livro em Ribeirão Preto era tanto um sonho meu quanto do Palocci. A grande façanha foi ter conseguido mostrar às pessoas que era um sonho possível e fazê-las não só acreditar quanto se envolver e se mobilizar para que desse certo. Deu certo! As pessoas precisam e querem ter esperança e participar de ações coletivas para tornar melhor, e com mais sentido, sua vida e a vida da comunidade em que vivem. Foram feitas articulações em nível nacional e estadual, e com as editoras, livrarias e autores, mas também as lideranças da cidade e região, de forma bem republicana. Cada um, e todos, sempre se sentiram um pouquinho donos da Feira, e, sem dúvida, essa é a raiz do sucesso e motivo pelo qual a sociedade abraçou a Feira. Também foi apropriado, entre o terceiro e quarto ano de governo, ter estimulado e ajudado a formar a Fundação Feira do Livro, com figuras de todos os setores, inclusive sociais e políticos, que tinham em comum o fato de gostar e defender a continuidade da Feira. Não fosse isso, ela não teria chegado até aqui.

O Calçadão – 15 anos depois, qual o balanço que o senhor faz do evento? Nos últimos anos o debate em torno da Feira se fez com relação aos tumultos causados pelos shows realizados na Esplanada. Qual sua opinião sobre isso?

Galeno – Um evento cultural dessa proporção e grandeza vive, necessariamente, de acertos e erros, até firmar-se. E os ajustes vão sendo feitos o tempo todo, até que se encontre o caminho mais adequado. Ela é uma feira de livro relativamente nova, que fará 15 anos em 2016 (a primeira aconteceu em 2001), uma adolescente em formação se comparada, por exemplo, com a cinquentenária Feira do Livro de Porto Alegre, a maior do país a céu aberto. O formato de 2015 me parece mais adequado. Leitura requer introspecção.

O Calçadão – O senhor foi Secretário da Cultura de Ribeirão Preto. A partir da sua experiência, o que pensa sobre o ambiente cultural da cidade? É possível sonhar em desenvolver uma política cultural que inclua as amplas massas, que inclua a periferia da cidade, que valorize todos os tipos de expressão cultural, mesmo com toda a dificuldade econômica que é uma característica sempre presente nos discursos?

Galeno – Sim. É possível sonhar e fazer. Quando fui Secretário, um dos programas que criei foi o de Descentralização, que começou pela construção de centros culturais nos bairros e foi além, a partir do entendimento de que são as pessoas e a comunidade que fazem cultura, seja em suas casas, em seus locais de trabalho, em suas práticas religiosas ou no espaço público. Inaugurei o Centro Cultural Campos Elíseos, o Centro Cultural Quintino II, o Centro Cultural Bambas, o Centro Cultural Embaixadores e a quadra da Escola de Samba Tradição. Mas sem relegar outras áreas. Foi na minha gestão, por exemplo, o início do restauro do Centro Cultural Palace. Reformulei o Conselho Municipal de Cultura para dar representação à cultura negra e japonesa, ao hip hop e outras formas de manifestação das periferias. Ouvindo toda a cidade, criamos a primeira Política Pública de Cultura de Ribeirão Preto, que contempla exatamente a criação, a fruição e a inclusão ampla das massas a partir de uma visão que valoriza  todo tipo de expressão cultural.

O Calçadão – No mesmo período em que o senhor foi Secretário da Cultura, o senhor teve a felicidade de criar um belo projeto de disseminação de bibliotecas pelos bairros da cidade, nos sindicatos e em diversos outros lugares onde a comunidade se organizasse para isso. As administrações seguintes não deram sequência ao projeto?

Galeno – Em pouco mais de três anos, aumentamos de 2 para 9,7 livros lidos por habitante/ano, que é cinco vezes mais que a média nacional. Desde então, cresceu de forma extraordinária a quantidade e a qualidade de nossos autores locais. Junto com a Feira do Livro, as 80 bibliotecas abertas durante nosso governo foram o sustentáculo dessa pequena revolução que encantou os literatos do Brasil e levou o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, a me convidar para formular e coordenar a criação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), juntando MEC e MinC e outros ministérios, instituições e pessoas físicas numa jornada incrível. Em 2005, Ano Ibero-americano da Leitura, fizemos 100 mil ações no País para aumentar a leitura. Quando retornei à cidade, anos depois, a grande maioria delas fora fechada. Os agentes mediadores de leitura foram demitidos, os livros foram tomados de volta pela Prefeitura e muitos desses locais – criados pela nossa Fábrica de Bibliotecas e resultado de mobilizações populares em reuniões do Orçamento Participativo – estavam fechados.

O Calçadão – Como nos ensinou Fernando Pessoa, por mais que caminhemos pelo mundo, nossos pés sempre estarão fincados em nossa aldeia. Como foi voltar a Ribeirão Preto depois de algum tempo vivendo fora?

Galeno – Primeiro, foi o susto de ver a cidade esburacada, a Prefeitura de umas cidades mais ricas do País simplesmente quebrada, o município perdendo as oportunidades que batem a sua porta e as pessoas tristes, mas, sobretudo, desesperançadas. Isso é o pior de tudo. Após a indignação, imediatamente o coração chama à razão e avisa que, seja lá como for, cada qual tem que fazer alguma coisa – por menor que seja – para ajudar a cidade virar esse jogo. Ela é forte, é dinâmica, é viva, só está sem rumo e sem projeto. Rapidamente, fiz minha religação com a cidade – onde, mesmo morando longe, sempre estive presente e é onde estão minha família, meus amigos e muitos dos meus parceiros da causa do livro e da leitura. Eu abri mão do carro, vou trabalhar a pé, ando de bicicleta, pego o ônibus urbano – a partir dessa perspectiva se enxerga uma outra cidade, para o bem e para o mal, já que os problemas e a ausência de políticas públicas inclusivas e populares ganham outra dimensão.

O Calçadão – No ano que vem teremos eleições municipais. As discussões em torno disso já se iniciaram. Na sua opinião, os debates de propostas, de projeto de cidade se encontram empobrecidos? Como o seu partido, o PT, está se organizando para 2016? Como uma liderança intelectual e política de Ribeirão Preto, seu nome surge naturalmente no quadro de candidaturas, o que pensa disso?

Galeno – Não vi até agora, infelizmente, nenhuma discussão sobre projetos. Tudo gira em torno de nomes, ambições políticas ou pessoais e… projeto que é bom, nada! Isso é pobre demais. Mesmo porque Ribeirão tem cabeças formidáveis, tem histórias de vida e de trabalho realmente fantásticas, e reúne todas as condições de se tornar um grande laboratório de ideias e gestões inovadoras, como aconteceu durante os dois governos petistas na cidade, quando Ribeirão virou vitrine de experiências bem sucedidas que foram reproduzidas e multiplicadas pelo país afora. O PT em Ribeirão tem aproveitado o momento para reorganizar seus setoriais, reagrupar suas bases e retomar com mais força seu diálogo com os setores da sociedade que mais precisam e mais clamam por políticas públicas de qualidade. Os candidatos naturais do partido à Prefeitura são, evidentemente, nossos dois vereadores, com seus históricos de serviços a favor da população que mais necessita. Mas é natural que apareçam também outros nomes. As pessoas não querem só mudar. Querem líderes estadistas e republicanos que sejam capazes de apresentar grandes projetos, envolver as pessoas em torno de si, devolver o sonho e a esperança coletiva e mostrar que são capazes de levá-los adiante.

Fonte: Blog O Calçadão

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