Iphan recomenda a retirada de quadros de Portinari da Igrejinha da Pampulha

Iphan recomenda a retirada de quadros de Portinari da Igrejinha da Pampulha

Funcionária cobre quadros da via-sacra, providência paliativa contra danos que já afetaram pelo menos três das 14 telas (Foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)

Funcionária cobre quadros da via-sacra, providência paliativa contra danos que já afetaram pelo menos três das 14 telas (Foto: Gladyston Rodrigues/EM/DA Press)

Medida extrema para preservar um dos maiores patrimônios culturais do Brasil: os 14 quadros recriando as cenas da via-sacra, pintados por Cândido Portinari (1903-1962) e destaque da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte, que integra o conjunto moderno reconhecido como patrimônio da humanidade. A partir de vistoria feita no templo por equipe do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a superintendente em Minas da autarquia federal, Célia Corsino, recomenda a retirada das pinturas das paredes, diante das infiltrações que já danificaram pelo menos três delas, além do forro de madeira. “Não posso tomar essa decisão sozinha. Vou apresentar a sugestão às direções da Fundação Municipal de Cultura (FMC) e do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) e, claro, à Arquidiocese de Belo Horizonte”, disse, ontem, a superintendente.

À tarde, após a leitura do relatório elaborada pelos técnicos do Iphan, Célia se mostrou preocupada com a situação dos quadros de Portinari, também autor da pintura do altar-mor e do painel externo retratando a vida de São francisco de Assis – que em março foi pichado por um vândalo. “Foram localizados danos pontuais na igreja, como manchas e desprendimento de policromia. Neste momento, temos que ser cautelosos quanto a qualquer definição e respeitar a determinação do termo de ajustamento de conduta (TAC) firmado com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG)”, afirmou Célia.

Na semana passada, em reunião com todas as instituições de patrimônio envolvidas, incluindo a Cúria Metropolitana, à qual a igreja pertence, foi firmado o TAC com o MP, representado pela promotora de Justiça e Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Histórico e Cultural de BH, Lilian Marotta Moreira. Conforme o acordo, o restauro do templo católico, construído entre 1943 e 1945 com projeto do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), ficará para 2018.

Andamento

O projeto se tornou um ponto polêmico na história da Igreja de São Francisco de Assis, monumento tombado nas esferas municipal, estadual e federal e reconhecido como patrimônio da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O problema é que, para dar a largada à restauração, que terá recursos de R$ 1,4 milhão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Cidades Históricas, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), via Sudecap, precisaria do templo liberado, tarefa difícil diante dos 215 casamentos marcados para o período de janeiro a dezembro de 2017. Em 30 de outubro, inconformados com um possível fechamento do templo no ano que vem, vários casais de noivos fizeram uma manifestação na porta da igreja.

Segundo o Iphan, os recursos federais para a reforma serão repassados por metragem, ou seja, enquanto a obra estiver em andamento. A Arquidiocese de Belo Horizonte informou na tarde de ontem, em nota, que vai monitorar o estado da igreja, “especialmente do forro que reveste o teto e das obras de arte que se encontram no interior”. Segundo os técnicos da instituição, “o resultado desse acompanhamento será partilhado com os órgãos competentes, por meio de relatórios periódicos”. Em 9 de janeiro, está prevista reunião de representantes da arquidiocese e do Iepha para avaliar o estado do templo.

No TAC, ficou determinado que as cerimônias realizadas na São Francisco de Assis poderão receber, no máximo, 150 pessoas. E a partir do dia 20 de novembro de 2017, a Igreja São Francisco de Assis estará à disposição da Sudecap/Prefeitura de Belo Horizonte para as obras de restauro. Em nota, a arquidiocese informa que “os noivos que, diante da informação sobre o início do restauro em 2017, fizeram a opção em celebrar o casamento em outro espaço, agora têm a possibilidade de retomar o projeto original. As datas previamente marcadas estão asseguradas. Importante sublinhar que somente serão celebrados os casamentos já marcados. Novos agendamentos de celebrações só poderão ser realizados mediante prévia autorização dos órgãos de proteção cultural, após a conclusão e entrega das obras de restauro da Igreja”.

A direção do Iepha informa que também já fez uma vistoria no templo, em conformidade com o TAC, e que só vai se manifestar após entendimento com a FMC e o Iphan. A Prefeitura de Belo Horizonte já gastou cerca de R$ 200 mil com o projeto de restauro, o qual deverá ser refeito diante do adiamento dos trabalhos de recuperação.

Estragos

Conforme constatou o Estado de Minas, durante as chuvas fortes o templo sofre com as infiltrações, que apodrecem as placas curvas de madeira do forro original da nave. A água passa pelas juntas de dilatação e cai em goteiras, obrigando funcionários a cobrir os quadros com capas e passar pano no chão a todo tempo. Os turistas veem o cenário com tristeza e pedem às autoridades pelo menos obras de emergência para impedir a deterioração da igrejinha, que abriga também obras de Paulo Werneck (1903-1962) e Alfredo Ceschiatti (1918-1989), além de ser rodeada pelos jardins do paisagista Burle Marx (1909-1994). Porém, segundo o Iphan, não podem ser feitas intervenções emergenciais na estrutura.

Fonte: Estado de Minas

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