Livrarias de rua de Belo Horizonte resistem como pontos de encontro e de vínculo entre leitores

Nem sempre comprar um livro é apenas um ato de consumo. O escritor e chargista mineiro Max Velati, por exemplo, entende essa prática também como uma espécie de “ritual”, que vai além da troca de dinheiro por uma obra. “Isso é muito pouco comparado com o que acontece quando você sai de casa sem saber, às vezes, qual exemplar pretende achar, nem qual autor você quer ler”, observa ele.

Prazeres da leitura e da convivência: Scriptium alia venda, publicação de livros e prepara lançamento de novo selo (Foto: Reprodução/ O Tempo)

Prazeres da leitura e da convivência: Scriptium alia venda, publicação de livros e prepara lançamento de novo selo (Foto: Reprodução/ O Tempo)

Os lugares onde esse tipo de busca e descoberta são mais viáveis de acontecer, para ele, são as livrarias. “Nelas nós conseguimos ter acesso a todas essas informações que precisamos, e lá podemos encontrar também outras pessoas que se guiam por esses impulsos e estão ali em busca de inspirações. A livraria cumpre o papel de ser o centro dessas experiências”, completa ele.

Porém, constantemente, novos desafios têm sido colocados a esses espaços que lutam para manter as portas abertas. Um deles é a concorrência com as vendas via internet, que oferecem produtos, muitas vezes, num preço inferior ao mínimo praticado nesses estabelecimentos. Em razão disso, entre outros fatores, vem se diminuindo a quantidade de livrarias, na capital mineira. A Mineiriana, por exemplo, encerrou as atividades em 2015, e mais recentemente, a Leitura, localizada na avenida Cristóvão Colombo, na região da Savassi, também anunciou o seu encerramento.

No entanto, há outras como a Quixote, a Scriptum e a Ouvidor, que têm tentado se manter na contramão desse movimento. Para leitores e frequentadores, a exemplo do médico João Baptista Magro Filho, a permanência delas é fundamental, pois permitem que constantemente sejam criadas ou reforçadas conexões não só com a leitura, mas entre as pessoas que circulam nesses ambientes.

Diálogos. Alencar Perdigão, proprietário da Quixote, recebe a escritora Staël Gontijo (Foto: Reprodução/O Tempo)

Diálogos. Alencar Perdigão, proprietário da Quixote, recebe a escritora Staël Gontijo (Foto: Reprodução/O Tempo)

“O que buscamos numa livraria acho que é justamente a possibilidade de manter alguns laços que ela nos possibilita construir. Esses podem se apresentar inicialmente no momento em que se abre um livro ou também quando temos a possibilidade de dialogar com alguém. Penso, por exemplo, em Bartolomeu Campos de Queirós, que aparecia na Quixote, ouvia todo mundo, comentava um livro, falava de outro que estava escrevendo e, por fim, nos abençoava a todos”, frisa Magro Filho.

Com suas características específicas, cada uma dessas três livrarias citadas será abordada a seguir individualmente. Dos cafés, encontros ao investimento em publicações, cada uma delas mostra porque a rua Fernandes Tourinho, onde todas estão localizadas, se tornou o principal destino de livreiros e leitores da cidade.

Presença frequente de diferentes turmas

Semanalmente, a escritora Staël Gontijo vai até a livraria Quixote, um dos seus lugares preferidos para sentar, escrever anotações e desfrutar de uma boa leitura, na capital mineira. “Eu brinco com Alencar (Perdigão, proprietário) que eu vou tomar essa livraria por usucapião porque eu venho aqui demais”, conta ela, que estava no espaço na segunda-feira (16), embora conte que costuma transitar pelo local mais às terças-feiras.

“Aqui há algumas turmas, e cada uma tem um dia para vir. Mas, ao mesmo tempo, não são grupos fechados. Se você sentar sozinho e quiser bater um papo com quem estiver aqui no dia, vai ter espaço para falar de livro, literatura, do assunto que quiser. Eu venho mais às terças-feiras no final de tarde, mas, às vezes, apareço também na segunda ou numa sexta. Isso é tão constante que meu marido me liga e diz assim: ‘você está no seu escritório’ e, quando eu respondo ‘sim’, ele já sabe que estou aqui”, ri Gontijo.

Nessa mesma tarde, apareceram as estudantes Alfonsina Carlis e Amy Gibson, que são, respectivamente, do Uruguai e do Reino Unido. Em viagem pelo país, elas contaram que procuravam um ambiente em Belo Horizonte onde pudessem ler um pouco e conversar. Entraram no Google e decidiram pela Quixote.

“Nós queríamos um momento para ler, interagir com outras pessoas e descobrir coisas diferentes”, diz Gibson. Carlis, por sua vez, ressaltou que optou pela livraria pela variedade de informações. “É como se tivéssemos aqui a oportunidade de conhecer centenas de cidades no mesmo espaço, que nos permite explorar tudo isso”, acrescenta.

De acordo com Alencar Perdigão, fundador da Quixote há 13 anos, essa circulação e frequência de pessoas no local acontece da maneira como ele havia imaginado desde o início, o que considera muito positivo. Contudo, hoje, percebe que a livraria precisa se reinventar para prosseguir na ativa.

“No momento eu noto que é necessária uma mudança, porque nos últimos anos as coisas mudaram bastante. Os lançamentos, que acontecem aos sábados, foram aumentando cada vez mais, enquanto a concorrência na venda de livros vem se acirrando. A grande ameaçadora hoje é a internet. Isso me obriga a repensar o negócio e eu acho que nós também precisamos de leis que regulem a venda do livro, tendo em vista a importância das livrarias de rua, que não deixam de ser um patrimônio da cidade, justamente por serem espaços de encontro”, diz. (CAS)

De livraria à editora de novos títulos

Quando resolveu montar a Scriptum, 19 anos atrás, Welbert Belfort não possuía o capital de giro necessário para abrir uma livraria. No entanto, ele tinha uma biblioteca pessoal considerável, montada com livros adquiridos e ganhados de escritores tanto do Brasil quanto do exterior. Uma solução encontrada por ele foi subtrair do seu próprio acervo cerca de 300 exemplares, que foram levados para uma pequena sala de uma galeria da rua Pernambuco, na região da Savassi.

Assim começou a livraria, que, a partir de 2002, mudou de endereço e se fixou na rua Fernandes Tourinho. Lá, ele ampliou o campo de atuação do negócio, ao abarcar também a publicação de escritores mineiros, de outros Estados e países também. Nomes depois premiados como Ana Martins Marques, Jacques Fux e Carlos de Brito e Mello tiveram obras editadas inicialmente pela Scriptum. Embora tenha acolhido diferentes segmentos, Belfort, ressalta o cuidado, desde o começo, com a produção de poetas.

“Antes de abrir a Scriptum, eu percebi que a poesia era algo que sempre ficava na parte interior das estantes das livrarias. Então, eu notei que, em relação a esse gênero, não havia em Belo Horizonte uma livraria especializada”, diz.

De lá para cá, a Scriptum vem colocando em circulação uma diversidade de obras que contemplam também a psicanálise, a crítica literária, as ciências humanas e a ficção. Ao comentar sobre o funcionamento da livraria, Belfort observa que ela deve ser pensada como algo orgânico. “Por isso eu acho importante fazer eventos, pensar numa seleção de títulos que as pessoas possam encontrar aqui, diferentemente das outras livrarias. Esse é um caminho mais difícil, mas é o que justifica a nossa existência”, diz.

Ele conta que vai lançar, em breve, um novo selo cujo objetivo é ampliar mais o caminho aos novos autores. Entre os obstáculos, ao seu ver, necessários de serem superados para manter a continuidade dos projetos é a regularização do preço do livro. “Por que aqui a gente trata o segmento do livro como se fosse uma terra de ninguém? É necessário uma lei que determine o preço único do livro durante um período, senão apenas as grandes redes terão chance de sobrevivência”, questiona. (CAS)

Referência como a mais antiga da rua

Depois de se encontrar com alguns amigos na Leitura, localizada no shopping Pátio Savassi, o médico Antônio Correa fez uma pausa na livraria do Ouvidor, outra sediada na rua Fernandes Tourinho, na região da Savassi. Ele conta que frequentemente também visita a Quixote, transitando pelos diferentes estabelecimentos em apenas uma saída.

“Na Ouvidor, encontro livros que não acho na Leitura e vice-versa. Na Quixote eu também noto que há alguns títulos que não existem em outros lugares. Então, eu vou fazendo um périplo por essas livrarias porque uma complementa a outra”, afirma Correa.

História. A livraria do Ouvidor foi inaugurada em 1979 (Foto: Reprodução/O Tempo)

História. A livraria do Ouvidor foi inaugurada em 1979 (Foto: Reprodução/O Tempo)

Ele não é o único que circula por cada um dos espaços dessa maneira. Bernardo Dantas Coelho Ferreira, proprietário da Ouvidor, afirma que esse é um comportamento muito comum entre os leitores. “Às vezes, o cliente daqui é o mesmo que frequenta todas as outras livrarias. Ele passa também na Quixote, na Scriptum e comprava quadrinho na Leitura da Cristóvão Colombo”, pontua.

Desse grupo, a Ouvidor é a mais antiga, existente desde 1979. Ele conta que ela surgiu depois de seu pai, Marcelo Coelho Ferreira, abrir a primeira na galeria do Ouvidor, no centro da cidade, em 1970. De lá para cá, o conteúdo da filial da Savassi se modificou.

“Ela começou ainda na onda do livro didático, já teve papelaria e realizava a troca de livro usados também. Mas, com o tempo, nós resolvemos concentrar os títulos didáticos no centro e aqui nós reunimos mais as obras de literatura, ciências humanas e arte”, recorda Ferreira, que trabalha no local desde 1997.

Mais recentemente, ele observa que a livraria tem dado mais atenção aos volumes infantis, criando uma seção especializada nesse segmento. “Nós estamos investindo na área infantil porque ela tem crescido muito. Os pais estão dando muita importância ao livro, coisa que algum tempo atrás não acontecia. Acho que isso é até motivado por uma tentativa de tirar um pouco os meninos da frente do computador ou da tela do celular, daquela loucura de ficar teclando o tempo inteiro”, afirma.

Sobre o futuro da livraria, ele é otimista, embora constate que o volume de leitores no país é pequeno. “Apesar de tudo, eu acho que esse é um tipo de estabelecimento que vai continuar existindo por muito tempo. Mas, se não conseguimos expandir mais, é porque o público é restrito”, conclui. (CAS)

Livrarias

Ouvidor: rua Fernandes Tourinho, 253 – Savassi

Quixote: rua Fernandes Tourinho, 274 – Savassi

Scriptum: rua Fernandes Tourinho, 99 – Savassi

Fonte: O Tempo | Carlos Andrei Siquara

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