Livros

Fábio Porchat

Bons livros, para mim, são aqueles que fazem as imagens saltarem para fora das páginas. Cada folha de papel vira uma pequena tela de cinema, praticamente. Aquelas palavras foram tão bem escolhidas que se transformam naquilo que querem dizer, ou melhor, que dizem! Foi assim com Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (um dos meus preferidos). Eu li esse livro durante minha estada numa tribo indígena no Acre. E uma coisa que me fez perceber como eu estava dentro do livro, vivendo aquela situação, foi durante uma leitura em uma canoa. Eu estava na parte da frente, compenetrado, num momento do livro em que o ambiente pútrido em que se transformou o lugar no qual os personagens estão presos era descrito. Fezes, urina, vômito, toda sorte de nojeiras. Nesse momento, a canoa fez uma curva e a água do rio entrou, molhando minha perna. E, imediatamente, o que eu pensei foi, “que nojo, sujei meu pé no lodo”. Durante uma fração de segundos, eu me peguei fazendo parte do livro, como se eu fosse um dos personagens, como se eu estivesse ali dentro daquela história. Olhei pro meu pé e percebi que era só água, e então me dei conta de onde eu estava de verdade.

O bom livro te leva a acreditar que você foi escrito também. Me lembro, ao ler A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, que fiquei muito surpreso quando, em dado momento, o caixeiro viajante morre. Eu estava tão tomado pela peça que tinha me esquecido do “spoiler” do título. É claro que ele deveria morrer, é o que se espera que aconteça desde a capa, mas a obra me tirou do meu mundo e me levou para o mundo dela. Ler O Processo, do Kafka foi um fardo. Não pelo livro, que é um dos meus preferidos, mas porque a cada parágrafo eu me sentia exausto com aquilo tudo, minha leitura se arrastou junto com o processo. Genial!

Agora estou lendo Shantaram, um livro de mil páginas (mil, eu disse mil) que é inteiro passado em Bombaim. Eu nunca fui à Índia, mas depois de ler esse livro, poderei afirmar pra qualquer um que já estive. A cidade se abre na sua frente, o cheiro dos lugares, a pluralidade da população, os hábitos de uma gente completamente diferente da sua.

O autor descreve tudo de forma tão fluida, clara e instigante que eu, ao final dessa odisseia, não vou dizer que li o livro, vou dizer que fui à Índia e voltei, sem nem ter saído do Brasil. E, recentemente, li O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, e fiquei na dúvida se tinha gostado ou não. O livro é bem escrito, claro, mas eu odiei o personagem principal. O tipo de pessoa pela qual eu não tenho nenhum tipo de afeto. Logo, o livro se tornou chato pra mim, porque não torcia para ele. Mas, ao mesmo tempo, me perguntei se, pelo fato de o personagem me gerar esse tipo de sentimento, isso não seria exatamente o que um bom personagem também pode gerar. E aí gostei do livro. Leia, sempre. Tudo.

Fonte: O Estado de S. Paulo

This entry was posted in Artigos, matérias e entrevistas and tagged . Bookmark the permalink. Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

Comentar

Your email is never published nor shared. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*
*