O novo papel das bibliotecas

Arnaldo Niskier,Especial para Opinião Pública

“A internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio, porque não filtra o conhecimento e congestiona a memória do usuário. O excesso de informação provoca amnésia. Informação demais faz mal.” As afirmações são do escritor, filósofo e semiólogo italiano Umberto Eco, ponto de partida para a reflexão sobre A biblioteca do futuro, tema da instigante conferência do diretor do grupo Gol Mobile, Roberto Bahiense, proferida na Academia Brasileira de Letras durante o Ciclo As novas linguagens do século XXI, coordenado pelo Acadêmico Evanildo Bechara.

Sugerindo a desconstrução etimológica da palavra “biblioteca”em sua origem grega para, segundo ele, ampliar o alcance do seu significado, Bahiense afirmou que as bibliotecas físicas vão se transformar em espaços simbólicos: “É preciso considerar a palavra bíblion (livro) e desconsiderar téké, pois os significados caixa e/ou depósito reduzem e manietam o novo e ainda desconcertante papel das bibliotecas.”

De acordo com o conferencista, mais importante do que refletir sobre o sistema de disponibilização do conhecimento é pensar no usuário da informação adquirida. Considerando que o país vive a triste dicotomia – “escolas do século XIX, professores com recursos do século XX e alunos conectados com o século XXI” – percebe-se o despreparo de instituições democráticas para envolver e canalizar ações de interesses para a classe trabalhadora ampliada.

Segundo números presentes no Censo Escolar 2013, 65% das unidades de ensino do país, públicas e privadas, não têm bibliotecas. Desde 2010, quando entrou em vigor a lei 12.244 — que obriga todos os gestores a providenciar, até 2020, espaços estruturados de leitura em suas unidades educacionais —, a situação praticamente não evoluiu. Naquele ano, só 33,1% das escolas tinham bibliotecas; em 2013, eram 35%.

Embora em melhor situação, as escolas particulares ainda estão longe da universalização dos espaços de leitura: apenas 59% delas os têm, ante 28,9% das públicas.

Com a modernização e a facilidade de acesso à informação, Bahiense falou da urgente necessidade brasileira de democratização do conhecimento. O digital não inviabiliza ou inutiliza o impresso. Eles se complementam e permitem às poucas bibliotecas existentes no país oferecer mais opções de conteúdo ao usuário, com variação de suporte, formato etc. A tendência é de acervos híbridos, com os ajustes que cada tipo de documento exige. O digital favorece a preservação ao eliminar a manipulação e deslocamento de originais. O acesso é ampliado, com títulos disponíveis nos catálogos das bibliotecas, podendo ser consultados de qualquer lugar, em qualquer horário.

A realidade do nosso país impõe uma solução transformadora. Para Bahiense, essa solução passa pela criação de um novo canal de distribuição em ambiente livre.

* Arnaldo Niskier, da Academia Brasileira de Letras, presidente do Ciee/RJ e diplomado em Matemática e Pedagogia.

Fonte: Diário da Manhã

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