Por que o maior escritor do Brasil parou de escrever?

Raduan Nassar (Foto: Reprodução)

Raduan Nassar (Foto: Reprodução)

A revista “The New Yorker” publicou no sábado (21), em seu site, um perfil do escritor Raduan Nassar, sob o título “Why Brazil’s Gretatest Writer Stopped Writing” (por que o maior escritor do Brasil parou de escrever).

No texto, Alejandro Chacoff, que mora no Rio e é jornalista da revista “piauí”, repassa a trajetória de Raduan e relata a conversa com o autor dos romances “Lavoura Arcaica” e “Um Copo de Cólera”, que foram traduzidos para o inglês recentemente pela primeira vez.

É uma rara ocasião em que o escritor de 81 anos se deixa entrevistar -no texto, Chacoff recorda que foi em uma entrevista à Folha de S.Paulo, em 1984, que Raduan comunicou que abandonaria a literatura.

Na ocasião, Raduan já havia recebido a aclamação pelos seus dois livros. Ele declarou a Augusto Massi e a Mario Sabino, do suplemento dominical “Folhetim”, que a literatura era uma paixão que se havia esgotado e que naquele momento estava interessado mais interessado em assuntos rurais.

“Minha cabeça hoje fervilha com outras coisas, ando às voltas com agricultura e pecuária, procurando me enfronhar sobre tratores, implementos, formação de pastos, tipos de capim, braquiária, pangola, setária, humidícula etc., tudo isso que, com perdão da autocitação, nada tem a ver com o ‘pasto das ideias’. A menos que me engane.”

Aparentemente, porém, a afirmação do escritor não foi tomada ao pé da letra; o título da reportagem da Folha de S.Paulo não destacava o abandono, que ficou claro quando o escritor, de fato, se retirou da vida literária.

SILÊNCIO

Desde então, Raduan Nassar se expôs muito pouco também à vida pública, de modo geral, falando com a imprensa raras vezes, quase sempre em breves declarações.

Mesmo ao ganhar o principal prêmio da literatura em língua portuguesa, o Camões, em maio de 2016, não quis dar entrevista, limitando-se a exclamar: “Eu não entendi esse prêmio, minha obra é um livro e meio!”

Tampouco deu entrevistas quando lançou sua obra completa, em outubro de 2016 -o volume incluía um ensaio e dois contos avulsos, até então inéditos.

O livro fazia parte das comemorações de 30 anos da Companhia das Letras, que publica sua obra, e o autor surpreendeu os leitores ao aparecer num dos eventos comemorativos do aniversário. Subiu ao palco para receber um prêmio dado pela editora, mas não disse uma palavra.

Raduan Nassar viveu de sua fazenda até se aposentar também desse ofício e mudar-se para São Paulo. Ele doou as terras à Universidade Federal de São Carlos em 2011, com a condição de que elas servissem a um novo campus que facilitasse o acesso de estudantes de comunidades rurais, como conta Chacoff no texto publicado na revista norte-americana.

Chacoff relata o temor de Raduan de ver essas terras privatizadas pelo governo. O texto frisa a convicção do escritor de que o impeachment de Dilma Rousseff foi golpe -durante o processo, Raduan se manifestou publicamente e chegou a discursar a favor de Dilma em Brasília e a publicar um artigo na Folha de S.Paulo.

O autor do perfil tenta, ao final, prover a explicação que o título do texto encerra.

“Em encontros anteriores”, escreve Chacoff, “eu havia hesitado em fazer a pergunta óbvia -‘Por que você parou de escrever?’- dizendo-me que era uma estratégia para deixá-lo à vontade”.

Certa tarde, conta ele, sentiu abertura, e viu que Raduan considerava a questão com cuidado. “Por um momento, nos sentamos um de frente para o outro em silêncio. Então ele olhou ao longe e disse: ‘Quem sabe? Eu realmente não sei’.”

Confira a reportagem na íntegra, em inglês, clicando neste link.

Fonte: Cruzeiro do Sul

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