Projetos de ordenação de mundo e o direito a bibliotecas

Wellington Marçal de Carvalho*

Em maio de 2015, foi realizada a cerimônia de formatura da primeira turma do curso técnico em Biblioteconomia do Pronatec/Coltec/UFMG. Parte de uma política do Governo Federal, de 2011, o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego tem o objetivo de “expandir, interiorizar e democratizar a oferta de cursos de educação profissional e tecnológica no país e contribuir para a melhoria da qualidade do ensino médio público”.

Por ocasião da formatura, fui agraciado como patrono da turma, e me pareceu bem adequado refletir sobre uma pergunta, de ordem existencial, do poeta mineiro Emílio Moura, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG: “Que eu, diverso de mim, surge a distância?”

Das janelas da sala em que trabalho atualmente, na diretoria da Biblioteca Universitária, fiquei tempos a fio pensando em trajetórias. Eu também fiz curso técnico. Estudei no Senai lá pelos idos de 1997, 1998. Formei-me técnico em mecânica de autos. Essa vida é de fato “a obscuridade do mistério”. A gente luta tanto, para fazer ruir um projeto de organização do mundo que não nos quer aqui. Ou que nos quer aqui em subalternidade, em subserviência. E eis que em um rito de passagem, tal como uma solenidade de formatura, temos a comemorar a falência desse plano macabro que nos quer como coisa. Que bom que algo deu errado.

Por ocasião da aula inaugural, em fevereiro de 2014, no 4º andar da Biblioteca Central desta nossa UFMG, conversávamos sobre a transformação social pelas bibliotecas. Retomamos uma fala do filósofo e historiador Joseph Ki-Zerbo, de Burkina Faso, muito provocativa, por sinal: “Se nos deitamos, estamos mortos”.

Naquela conversa debatemos sobre o Sistema de Bibliotecas da UFMG, estrutura, missão, organograma, as várias publicações editoradas por este Sistema, as reverberações das bibliotecas da Universidade nos veículos de notícias dentro e fora da Instituição. O que eu quisera transmitir, àquela época, aos alunos de então, era o lembrete de que esses equipamentos culturais, as várias bibliotecas daqui, também são e sempre foram – pelo menos em tese – de todos. Coisa pública que são as bibliotecas e a Universidade Federal de Minas Gerais.

Esses mecanismos, as bibliotecas, só terão sentido se nos servirem como instrumentos para transformação social e para mobilizar nossos cérebros (como diria o martiniquense Frantz Fanon), no sentido de despertar a nossa alma combativa para uma jornada-trajetória em direção a um mundo mais justo. Bibliotecas precisam ser criadas, utilizadas, estruturadas, preservadas.

Então, “se nos deitamos, estamos mortos!” Nessas 760 horas de um curso, parte do eixo tecnológico dedicado ao “desenvolvimento educacional e social”, sediado neste polo do Coltec, sobressai uma obrigação: enfileirarmos-nos na luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso, assim como nós, a diferentes culturas.

Como vimos pela lente do crítico brasileiro Antonio Candido, “uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos e, assim, a fruição da arte, de bibliotecas, e de literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável”.

Tudo o que foi visto nesse curso de técnico em Biblioteconomia só fará sentido para a vida em sociedade se, em todos os atos no exercício da profissão, em bibliotecas ou em qualquer outro ambiente laboral, injetarmos uma generosa dose de humanidade na prática cotidiana. Só valerá em si, se desse ato resultar, ao final, uma contribuição para deixar mais humana a relação entre humanos.

Nas visitas e estágios feitos em bibliotecas, arquivos, museus e centros de documentação, fica cada vez mais claro que o nosso papel não permite nunca contingenciar a criatividade e o bom senso na aplicação das técnicas, métodos e regras apreendidas. A técnica pela técnica não nos levará a nada. A efervescência da vida nos exige mais que isso.

Para finalizar, exemplificaria o quão possível é bagunçar um projeto de ordem excludente. Refiro-me ao trabalho liderado pelo Túlio, lá de Sabará, no que se constitui hoje uma rede de bibliotecas comunitárias: a Borrachalioteca. Em meio a macacos, chaves de roda, pneus, qual foi a sacada? Livros, livros, muitos livros! E muito mais! Provocador, não?! Túlio e os seus não estão deitados, logo não estão mortos. Deitados e mortos ficaremos nós?!

Vivos estamos. Ao negociarmos com o mercado de trabalho, sempre será possível não nos afastarmos de uma intervenção respeitosa às pessoas, uma interlocução com urbanidade com nossos semelhantes, uma criativa prática profissional e, sem qualquer dificuldade, uma investida inclusiva de pessoas deficientes, daquelas que requerem, por sua constituição, serviços especialmente adaptados.

Se “o grande movimento é a volta”, ­retomemos minha questão inicial, emprestada do poeta Emílio Moura: “Que eu, ­diverso de mim, surge a distância?” Qualquer coisa que sejamos nós, se for mais humana, menos medíocre, nada egoísta, já será uma contribuição valiosa para a vida. A vida em plenitude. Como o geógrafo brasileiro Milton Santos nos alerta: “O presente é o real, o atual que se esvai e sobre ele, como sobre o passado, não temos qualquer força. O futuro é que constitui o domínio da vontade e é sobre ele que devemos centrar o nosso esforço, de modo a tornar possível e eficaz a nossa ação”.

*Servidor técnico-administrativo em Educação, bibliotecário-documentalista, diretor da Biblioteca Universitária/Sistema de Bibliotecas da UFMG

Fonte: Boletim da UFMG

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