CRB-6 entrevista: Dandara Baçã

Mulher, negra e bibliotecária

Bibliotecária no Ministério da Saúde, Dandara Baçã de Jesus Lima (CRB-1/2553), é formada na Universidade de Brasília (UnB). Graduanda em Direito pelo Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), cursa também pós-graduação em Direito Notarial e Registral, além de mestrado em Saúde Coletiva na UnB. Ativista social, Dandara atua no Movimento Negro Unificado (MNU), na organização Corpolítica, na Frente de Mulheres Negras do Distrito Federal e no Entorno e Rede de Ciberativistas Negras Contra o Racismo e o Sexismo.

Bibliotecária Dandara Baçã atua no Ministério da Saúde e é ativista social (Foto: Arquivo Pessoal)

Como você se tornou bibliotecária? O que te motivou a estudar Biblioteconomia?

Na juventude eu tinha poucas expectativas para o futuro, nunca imaginei que conseguiria estudar em uma universidade. Ao final do Programa de Avaliação Seriada (PAS), da UnB, interessei-me por Arquivologia e Biblioteconomia e minha escolha foi relacionada à segurança: na época havia muitas reportagens sobre violência na UnB no período noturno e isso me fez escolher a Biblioteconomia, uma opção de curso diurno.

Como você enxerga a Biblioteconomia brasileira e a atuação dos bibliotecários nos dias de hoje?

Existe um potencial a ser desenvolvido, visto que há pouca vontade de se reinventar. Na Biblioteconomia existem muitos preconceitos explícitos, principalmente contra quem não possui mais títulos acadêmicos. Percebo que, muitas vezes, não sou ouvida em grupos de discussão da área por ainda não ser pós-graduada, por exemplo. Além disso, a Biblioteconomia brasileira vive em um mundo próprio, marcado por uma suposição de que haja reconhecimento profissional para todos. Mas nos deparamos constantemente com preconceito, homofobia, transfobia e racismo. Precisamos quebrar essa “bolha” e nos reinventar. Há muita demanda da sociedade por serviços que temos competência para realizar, mas não o fazemos.

Você trabalha, desde 2014, no Ministério da Saúde. Conte um pouco sobre seu ingresso na carreira pública. Quais orientações você daria a quem tem interesse pela área?

Trabalhei em diversas unidades da informação e minha última passagem foi pela Universidade Paulista (Unip), na unidade de Brasília. Estudei e trabalhei durante todo o tempo em que me preparava para o concurso e percebi que não há uma fórmula mágica para ser aprovada em um concurso,  principalmente quando grande parte do conteúdo a estudar vai além da nossa formação acadêmica.

Um benefício em trabalhar no serviço público é que você pode escolher em qual seção quer trabalhar. Isso permite uma melhor identificação com a atividade exercida, e, portanto, passa-se a não estar lá somente pela remuneração, por exemplo. Ao candidato que não foi aprovado em um concurso, meu conselho é: não se martirize. Os concursados não são mais inteligentes, só obtiveram mais  acertos. Não desista do seu objetivo e, caso tenha suporte familiar, foque nos estudos e não vá para o mercado de trabalho. O dinheiro que recebemos não traz felicidade, ele é só um dos campos das nossas necessidades básicas. Atualmente, trabalho na biblioteca do Ministério da Saúde, lugar que lutei para estar e onde espero realizar algo de significativo para os usuários. Na área que estava antes, eu recebia o mesmo que na biblioteca, mas agora me sinto mais feliz e realizada atuando como bibliotecária e isso não se deve à minha remuneração.

Fale um pouco sobre saúde coletiva, sua área no mestrado. Por que escolheu este campo?

O Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde, tem um convênio com a Universidade de Brasília para promover mestrados profissionais, e decidi me inscrever. Meu pré-projeto foi escrito com o apoio de amigas do trabalho, uma administradora, uma enfermeira e uma sanitarista, e também com a ajuda do Cristian Brayner, colega do Direito. Fui aceita, e sei que sem meus amigos eu não teria conseguido, nem mesmo tentado.

A área da saúde me atrai por vivências pessoais. Minha mãe, falecida em 2015, enfrentou muitos problemas de saúde durante toda a vida e isso a afastava, por muitos momentos, de mim e dos meus irmãos. Quando minha mãe faleceu, percebi que sua morte tinha grande relação com tratamentos inadequados e dificuldades em conseguir transferência para um hospital com melhor estrutura e mais pessoal. Impactada pela situação, enxerguei como nós, mulheres negras, não recebemos um tratamento igualitário nos meios de saúde. Isso alimentou minha militância. Percebi, também, que o Sistema Único de Saúde (SUS) não abrange tratamentos alternativos ou espirituais: minha vó era Ialorixá (sacerdotisa de religiões de matrizes africanas) e tratava doenças. Entendo que o atendimento prestado pelo SUS deveria ser mais plural, considerando as raízes dos cidadãos brasileiros.

Você é bastante participativa nas redes sociais. Quais suas motivações para o ativismo digital?

Eu não me sinto uma ativista digital, apesar de fazer parte da rede de ciberativistas de mulheres contra o racismo e o sexismo. Minhas postagens seguem minhas vivências, o que penso e o que acredito. Recebi um presente chamado Corpolítica, uma coletiva LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) da UnB. Tive a oportunidade de conhecer pessoas inteligentes, com conteúdo e vivências e isso tem me proporcionado uma relevante evolução pessoal. Minhas postagens não têm mais o conteúdo evangelizador de quando eu estava cursando a graduação. Hoje, priorizo que as pessoas do meu círculo de amizades tenham acesso a informações que eu não tive. A motivação das minhas postagens é fruto do que tenho aprendido com meus amigos.

Para você, debater considerando os recortes de raça, de diversidade sexual e de diversidade de gênero é uma necessidade da área. Quais suas impressões sobre isso?

No ano passado, solicitamos, via petição virtual, que o Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB) criasse uma comissão dentro de sua estrutura para debate.  Não obtivemos uma resposta oficial, mas dialogamos com a classe sobre essa necessidade. O Brasil é o país que mais consome pornografia de travestis e o que mais as mata. Nós bibliotecários precisamos analisar esses perfis de acesso à informação, o que consome e o que perpetua a violência.

A forma como organizamos nosso conhecimento diz muito sobre o que consideramos relevante. De forma geral, nossos acervos não trazem documentos em que as pessoas LGBT são retratadas de forma positiva. Na Classificação Decimal Universal (CDU), o racismo está na tabela de ponto de vista, sendo que, na verdade, ele é crime, uma violência. As religiões brasileiras também sofrem um preconceito velado pela classificação, pois geralmente ficam junto a livros que tratam de temas obscuros ou misticismo. A biblioteconomia precisa ser descolonizada, como o professor Jonathas Carvalho sinaliza em seu livro “Tópicos em Biblioteconomia e Ciência da Informação”, lançado pela Biblioo. Jonathas demonstra que a Biblioteconomia brasileira é uma compilação de teorias estrangeiras, as quais nós somente reproduzimos sem considerar nossas especificidades. Precisamos fazer uma Biblioteconomia de fato brasileira, gerir informação baseando-se em nossa cultura.

Como é ser mulher, negra e bibliotecária no Brasil atualmente?

Acrescentaria ser gorda, fora do padrão e LGBT. Não é fácil, nunca foi e as perspectivas para o futuro não são boas. Ser mulher preta em um país racista é resistir. Rotineiramente, enfrentamos o racismo, ele destrói nossa saúde mental, nossa autoestima e nos isola da sociedade. Nós estamos sozinhas quando somos as únicas na universidade, a única no restaurante universitário, a única da biblioteca… Somos geralmente a única negra nos espaços. Eu sou a única negra de tez escura da minha turma de mestrado. E somos a maioria da população. É um absurdo que os únicos lugares em que nos vemos em maioria seja nas periferias e nos empregos subalternos.

Na Biblioteconomia, não há autores negros nas bibliografias das disciplinas, mesmo nas com autores a partir de 1940. Tenho certeza que, desde essa época, vários bibliotecários negros produziram material bom o suficiente para ser publicado. Por que as editoras não os publicam? Por que lemos tantos livros traduzidos de estrangeiros, mas temos tão baixa produção de livros e de diversidade de autores? Por que não temos incentivo de nenhum das associações acadêmicas para a produção de livros com diversidade de autores? São questões que precisam ser debatidas.

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