Especial Revista CRB-6 Informa: entrevista com Liliana Giusti Serra

O Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6) está sempre pesquisando diversos temas para informar aos nossos associados os projetos que vêm sendo desenvolvidos na área e temas de interesse profissional. Por isso, nas próximas edições do Boletim Eletrônico, vamos publicar uma série com matérias que foram produzidas pela nossa assessoria de imprensa, mas que não entraram na íntegra na última edição da revista CRB-6 Informa.

A primeira desta seção será uma entrevista com a bibliotecária Liliana Giusti Serra (CRB-8/5695), graduada pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FaBCI/FESPSP) e filha de bibliotecários. Ela atua na área desde 1989, em bibliotecas universitárias, escolares, públicas, culturais e jurídicas. É mestre em Ciência da Informação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e especialista em Gerência de Sistemas pela FaBCI/FESPSP. Confira sua entrevista abaixo!

NOTA 4

 

Você viaja pelo Brasil ministrando palestras e cursos. Como vê o mercado para o profissional de biblioteconomia?

Infelizmente não tenho tanto contato com as atividades do Norte e Nordeste como gostaria. O SophiA está presente na Espanha e também tenho proximidade com bibliotecários de outros países. É curioso observar o trabalho dos profissionais nesses locais. No geral, eu vejo um mercado em expansão, com muitas oportunidades de trabalho surgindo. Entretanto, estes postos não são, necessariamente, disponibilizados como cargos de bibliotecário, mas de analista, gestor ou arquiteto da informação, entre outras nomenclaturas diversas adotadas. O próprio bibliotecário não tem dimensão das suas possibilidades de atuação. Observo que os especialistas que estão ocupando esses postos são, normalmente, capacitados em história ou computação.

Não sou contra a atuação desses profissionais e, sim, a favor da multidisciplinaridade. Porém, acho que o bibliotecário tem formação para tratar a informação com maior propriedade, mas não tem a oportunidade de ocupar esses espaços e mostrar seu potencial e habilidades. A troca de conhecimentos entre essas especialidades, por sua vez, também é muito benéfica e estou certa de que podemos contribuir muito. Enxergo o mercado da biblioteconomia com diversas possibilidades, afinal a informação é onipresente, universal, estratégica e determinante nos negócios.

Em quais regiões do país e áreas de atuação acha que estão as melhores oportunidades?

Não sei se tenho condições para responder essa pergunta. Acredito que as melhores oportunidades ainda estão no Sudeste, mas não acompanho bem a movimentação das vagas no mercado de trabalho. Há espaço em todas as regiões, tanto na área pública quanto na privada. Observo que os profissionais investem mais em concursos, com baixo interesse na iniciativa privada. Não sou favorável a essa estratégia. Existem propostas muito interessantes em ambas. Já atuei nas duas esferas e prefiro a privada para trabalhar, pelo dinamismo e velocidade com que as coisas acontecem. Na pública, normalmente, as inovações demoram mais a chegar. Entretanto, percebo que a estabilidade representa um atrativo para alguns bibliotecários. É possível realizar bons trabalhos em instituições privadas e acredito que estabilidade é conquistada pelo profissionalismo e dedicação.

O perfil do profissional tem mudado? Se sim, o que tem causado essa mudança?

O perfil está em processo de mudança. Isso está ocorrendo na área como um todo, com diversas transformações em nossas rotinas, processos, códigos de catalogação, estrutura e formato, como na virtualização e digitalização dos conteúdos, serviços oferecidos, uso do espaço da biblioteca e no próprio usuário. Se o bibliotecário não mudar, não estará apto para atuar neste mercado. As bibliotecas se sentem ameaçadas com as ferramentas de consulta online, pelas novas tecnologias, que representam um meio e não o fim desses espaços. Precisamos delas porque o volume de dados com que lidamos é enorme. Não digo que devemos atuar somente com a tecnologia e, sim, saber extrair dessas ferramentas as melhores condições para realizar nosso trabalho, agregando, ainda, a possibilidade de executar novas atividades ao ofício. Os profissionais que não se atualizarem e mudarem de postura, não encontrarão muito espaço de atuação.

O rigor técnico observado anteriormente perdeu bastante de seu apelo. As regras são importantes e devem ser aplicadas, porém as ferramentas tecnológicas liberaram o bibliotecário das atividades descritivas para realizar análise dos dados, selecionar fontes, orientar seus usuários. Esse é o objetivo principal do seu ofício: ser um prestador de serviço, um gestor da informação. Para isso, deve ter a agilidade para atuar como essa ponte entre o usuário e o conhecimento.

O que é preciso para obter êxito na área?

Em primeiro lugar, curiosidade, ou seja, disposição para buscar a informação onde ela estiver e saber onde encontrá-la. Não contentar-se com o mínimo e sempre procurar alternativas para responder as perguntas dos usuários. Para isso, o bibliotecário deve conhecer bem seu acervo e o público que atende. A informação é fundamental nos negócios e a matéria-prima dessa profissão tão estratégica.

Você acredita que a área de atuação às vezes é subestimada pelas pessoas? Há mais oportunidades do que se imagina? Onde?

Acho que, muitas vezes, é subestimada pelos próprios bibliotecários, cujo perfil é técnico. Precisamos desenvolver nossa capacidade de gestão e negociação com os usuários internos e externos. Sinto que tentamos forçar neles nossas habilidades. Conheço profissionais que se orgulham de ensinar MARC aos visitantes, um formato para ser legível por máquinas e não por pessoas, muito menos pelos usuários. O bibliotecário, em minha opinião, deve usar a técnica e não ser escravizado por ela e, muito menos, impor isso ao seu público.

A biblioteca é um local para descoberta de informações e as técnicas auxiliam esse processo, seguindo padrões, protocolos e formatos necessários. Para o usuário, porém, a experiência é diferente. Por meio de dados bem-estruturados, podemos dar autonomia a ele para que consiga localizar a informação sem nossa mediação. Isso não diminui a importância do profissional que, no mundo virtual, é diferente.

Enquanto o profissional privilegiar somente a técnica ele limitará sua atividade no mercado. O bibliotecário pode atuar em qualquer segmento onde a informação é necessária, ou seja, em qualquer lugar.

Qual o futuro da profissão?

Com o aumento da produção de informação e a sua disseminação na web, acredito no potencial dos bibliotecários para gerenciar esse ambiente, identificando as fontes pertinentes, legais e adequadas aos usuários. Aqueles que se mantiverem fechados sem interação com o mundo externo e a preocupação de se modernizar com novos processos e serviços estarão limitando seu campo de atuação e, consequentemente, a valorização do seu trabalho.

CRB-6 Informa

Para acessar a versão completa da revista, clique aqui.

Você também pode conferir as edições anteriores. Acesse este link para conferir todas as versões já produzidas da Revista.

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Um Comentário

  1. IVAN
    Posted 26 de fevereiro de 2016 at 9:59 | Permalink

    Decepcionado com curso, com a área que só fala em tecnologia, programas, multas para quem não cumpre as regras, novos aplicativos. Até parece que somos programadores. Decepção total com a área. Atuo desde os 18 anos como auxiliar e assistente. Terminando o curso. Decepção com a área , não com meu trabalho.

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