Especial Revista CRB-6 Informa: Paulo da Terra, uma referência nacional

Continuando com a série de repercussão das matérias que não foram divulgadas, na íntegra, na última edição da revista CRB-6 Informa, selecionamos a entrevista com Paulo da Terra Caldeira, professor da Universidade Federal de Minas (UFMG) e ex-presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6). Confira, abaixo, a trajetória deste que é um dos maiores nomes da biblioteconomia do país.

NOTA 3 (Small)Paulo da Terra Caldeira é bibliotecário há mais de 45 anos (Foto: Marla Domingues)

Referência nacional quando se fala em bibliotecas, Paulo da Terra Caldeira iniciou sua trajetória em 1967, quando ingressou no curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 1970 já lecionava e seguiu como professor da instituição até 2014, quando se aposentou. Concluiu o mestrado em Ciência da Informação pelo Instituto Brasileiro de Informação Científica e Tecnológica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBICT/UFRJ), em 1974. Seguiu escrevendo diversos artigos que, segundo ele, passam de 50, além de três livros: Guia das Bibliotecas de Minas Gerais (1977), Imigrantes italianos e portugueses no Brasil (1989) e Descendência das famílias Fuccio, Terra Pereira e Caldeira: contribuição para uma genealogia (2006). Também contribuiu com capítulos para outros livros, tais como Introdução às fontes de informação (2005), Formas e expressões do conhecimento: introdução às fontes de informação (1998) e A biblioteca escolar: temas para uma prática pedagógica (2005). Realizou, ainda, diversas exposições como curador, entre as quais, De Gutemberg a Informação Virtual, na UFMG (2000), Coleção Rita Adelaide, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa (2006), e Obras Raras da UFMG, no mezanino da reitoria da UFMG (2007). Foi, ainda, editor da revista Perspectiva da Ciência da Informação da UFMG. O professor conversou com a equipe de reportagem do CRB-6, contou um pouco mais sobre sua carreira e sua visão sobre como a Biblioteconomia evoluiu nesses 65 anos de existência da Escola de Ciência da Informação da UFMG e 50 de regulamentação da profissão.

O que o fez escolher pelo curso de Biblioteconomia?

Eu gostava muito de literatura e imaginei que a biblioteca seria o local ideal para trabalhar. Era a falsa ideia de que, como bibliotecário, e tendo um acervo todo à minha disposição, teria tempo para ler. Não é bem assim. A profissão exige uma série de rotinas que vão muito além da leitura.

Quando o assunto é biblioteconomia escolar, o Sr. é referência. Por que escolheu esse caminho?

Essa foi uma das vertentes que me atraiu devido à bibliografia e às informações disponíveis sobre a área na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa. Ainda estudante, tive uma experiência profissional na Escola de Engenharia da UFMG. Nessa época, pude ter uma nova perspectiva sobre a Biblioteconomia. Eu catalogava os livros e a informatização ensaiava seus primeiros passos quando pude trabalhar com um aparelho chamado flexowriter. Ele foi o primeiro computador a processar informações em tempo real, produzindo automaticamente as fichas dos catálogos, dispensando o uso das máquinas de escrever. Já professor, fui convidado a assumir a diretoria da Biblioteca Universitária da UFMG, de 1990 a 1994.

Nesses 49 anos de trajetória profissional, o que mudou?

Da época em que me tornei aluno até os dias atuais, o contexto se transformou radicalmente. Os materiais disponíveis sobre a Biblioteconomia, por exemplo, eram escassos. Os que existiam eram em língua estrangeira – inglês, francês ou espanhol. Publicações técnicas na área em português eram raras. Quando saia algum artigo, era na Biblioteca Nacional. Essa situação começou a mudar em 1972, com a criação da Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG e Ciências da Informação, do Instituo Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD), atual Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT).

A partir desse período, os alunos e profissionais começaram a contar com uma literatura publicada em língua portuguesa. Porém, eram somente dois fascículos, com cerca de 10 a 12 artigos, não mais que 40 por ano. Era pouco, mas melhor do que só ter material estrangeiro, principalmente porque nem todo mundo tinha conhecimento em outros idiomas.

Dali em diante, outras revistas foram criadas, entre elas a Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação e a Revista de Biblioteconomia de Brasília. Além dessas publicações, a realização de eventos contribuiu bastante. Os trabalhos apresentados nos seminários eram divulgados por seus autores nos eventos, por meio de cópias feitas em mimeógrafos a álcool, que eram replicadas na área pelos profissionais. À medida que o tempo foi passando, o setor foi se organizando, quantidade de materiais publicados aumentou significativamente, e os participantes desses encontros começaram a levar esses trabalhos para as bibliotecas em que atuavam.

As publicações de livros sobre Biblioteconomia também se tornaram mais frequentes nos anos 80, em todo o Brasil. Hoje, temos uma quantidade razoável de obras técnicas específicas sobre a área. Quem atua com biblioteca pública escolar, por exemplo, tem uma grande contribuição a oferecer. Uma quantidade enorme desses profissionais tem voltado às universidades para fazer cursos de mestrado e doutorado. Em breve, teremos um reforço significativo de artigos e trabalhos nesse âmbito.

O senhor já foi membro do Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6) em duas oportunidades: na 3ª Gestão (1973 a 1975), como tesoureiro, e na 4ª Gestão (1976 a 1978), como presidente. Como você percebe a atuação do CRB-6 hoje?

Sempre foi muito importante, uma vez que o Conselho tem a função de facilitar o trabalho do profissional. Vale destacar que, na época em que fui presidente, realizamos um levantamento de todas as bibliotecas de Minas Gerais, em 1978, e acredito que essa é, ainda, a única publicação impressa que trata do tema.

Atualmente, o CRB-6 cumpre bem seu papel e deve seguir orientando as instituições a contratar profissionais capacitados no ofício. Acho que mais do que fiscalizar e cobrar, também deve verificar como as bibliotecas têm funcionado, mostrando-se parceiro no fomento de melhorias. Essa é a tarefa mais importante a ser realizada: ser mais proativo e menos coercitivo, mostrando aos bibliotecários que eles podem fazer sempre mais e melhor.

Em 2015, foram comemorados os 50 anos da regulamentação da profissão de bibliotecário. Quais as principais mudanças o Sr. destaca?

Houve uma mudança bastante significativa na qualidade dos acervos das instituições. Nas escolas também houve grande evolução. Quando entrei para a Escola de Biblioteconomia, tínhamos apenas professores doutores em outras áreas, como Literatura e Filosofia. Não tínhamos doutores na nossa atividade. Hoje, o nível dos profissionais nas bibliotecas, especialmente as universitárias, melhorou bastante, e elas já contam com um número razoável de profissionais com mestrado e doutorado. Um exemplo está, em pelo menos, duas unidades da UFMG, em que há dois bibliotecários doutores.

Certamente, o perfil do profissional mudou muito nesses 50 anos de regulamentação e 65 anos de Escola de Biblioteconomia, atual ECI/UFMG. A mesma evolução se deu em relação ao acervo, espaço físico, mobiliário e, mais importante, informatização desses espaços, que trouxe benefícios relevantes não apenas para os usuários, mas também para as bibliotecas e para o bibliotecário de forma geral.

Além disso, o ofício, agora, vai além de encontrar a informação. O usuário vai ao computador, faz pesquisas, mas não identifica se a informação daquele autor é fidedigna. O bibliotecário tem a capacidade de avaliar a qualidade e a credibilidade do conhecimento e confrontar as abordagens de um mesmo assunto, a partir de autores diversos. Seu papel é fundamental é mostrar a importância de uma boa consulta bibliográfica.

A antiga Escola de Biblioteconomia, em universidades como a UFMG e USP, agora levam o nome de Escola de Ciência da Informação, abraçando os cursos de Arquivologia e Museologia. Como vê essa mudança?

Todos eles – Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia – tratam da informação, seja escrita ou documentada, por meio de imagens ou objetos. E a área da Ciência da Informação vive um momento de efervescência, haja vista que os cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado) se dividiram e passaram a ser oferecidos em três modalidades diferentes: Gestão da Informação e do Conhecimento, Informação, Cultura e Sociedade e Organização e Uso da Informação. Isso demonstra que a área está em constante evolução.

Especial Revista CRB-6 Informa

Esta série de matérias teve início no último Boletim Eletrônico, em que divulgamos uma entrevista com Liliana Giusti Serra, bibliotecária graduada pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FaBCI/FESPSP). Ela é mestre em Ciência da Informação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e especialista em Gerência de Sistemas pela FaBCI/FESPSP. Para conferir o texto, que não entrou na íntegra da última CRB-6 Informa, clique aqui. Para acessar a revista do Conselho na íntegra, clique aqui.

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