Livro revê a vida de Manuelzão

 Manuelzão foi o famoso vaqueiro amigo do mineiro Guimarães Rosa, autor do livro “Grande sertão: veredas”

Eduardo Ottoni, Neif Jabur e Manuelzão (Foto: Acervo Assembleia Legislativa de Minas Gerais)

Eduardo Ottoni, Neif Jabur e Manuelzão (Foto: Acervo Assembleia Legislativa de Minas Gerais)

Guimarães Rosa surgiu para Manuel Nardy em 1952, quando ainda era Manelão. Rosa disse que buscava material para terminar um livro, “Sagarana”. Manelão, diante do homem versado, saiu logo chamando-o de doutor. Rosa reagiu: “Doutor, não! Pode me chamar de João: João Rosa. E eu vou te chamar de Manuelzão.” Estava batizado, então, o vaqueiro-personagem que agora ganha biografia.

“O xale de Rosa”, escrito pelo sobrinho de Manuelzão, Pedro Fonseca, foi lançado, em Cordisburgo, no Museu Casa Guimarães Rosa, como parte da programação da 24º Semana Roseana. O livro ainda terá lançamento na cidade onde viveu Manuelzão, Andrequicé, também em Minas Gerais, no dia 6 de julho.

‘Perguntação danada’
O vaqueiro aparece não só na trilogia “Corpo de Baile”, na qual está “Manuelzão e Miguilim – uma estória de amor”, de 1956, como também é autor e personagem de vários dos causos da prosa de Guimarães Rosa. Manuelzão é, para seu biógrafo, o “Dom Quixote do sertão”, ou ainda, como escreve no prefácio a jornalista Juliana Simonetti, uma “espécie de super-herói de esporas”.

“O xale de Rosa” sai pela Editora UFMG. Ficou pronto em 2006, mas seu autor decidiu que, antes de publicá-lo, era preciso refazer a comitiva que Manuelzão conduziu em 1952 pelo sertão das Gerais, ao lado de Guimarães Rosa, outros tantos vaqueiros e 198 cabeças de gado. Em 2007, Fonseca organizou, com os vaqueiros remanescentes da viagem original, o mesmo percurso pelo sertão.

Da viagem refeita, Fonseca escreveu “A realização de um sonho – O Diário da Comitiva do Sertão das Gerais”, que também sai agora, junto da biografia de Manuelzão e que, com ela, soma 520 páginas.

Pedro Fonseca conviveu com o vaqueiro, casado com sua tia, durante 40 anos. Por algum tempo, Manuelzão foi o capataz da família de Fonseca (“A vida dele foi sempre trabalhar para os outros”, diz).

Quando, em 1978, Fonseca concluiu a faculdade de Publicidade e foi trabalhar numa agência, sugeriu Manuelzão como garoto propaganda do edifício Guimarães Rosa, empreendimento da Encol em Belo Horizonte. Depois disso, o vaqueiro foi garoto propaganda da Caixa Econômica Federal, ao lado de figuras de Minas Gerais, como Carlos Drummond de Andrade, e apareceu sozinho numa campanha de vacinação contra a febre aftosa.

Sua “fama” vinha, é claro, da relação com Guimarães Rosa. O escritor chegou ao vaqueiro por meio de seu primo Chico Moreira. Na biografia, Fonseca conta como ele anunciou ao vaqueiro a chegada de Rosa:

“Cumpadre, eu tenho um primo que mora lá na Itália, esteve na guerra e está querendo passar uns dias aqui para conhecer algumas histórias. Ele me telegrafou. Quer que você junte os velhos, violeiros e cantadores para contar uns causos pra ele. Mas ele só quer coisa velha.” Manuelzão respondeu: “Velho é o que não falta! (…) Se ele não ligar para o desconforto, pode vir. Vai ser bom. Ele aproveita a festa lá na capelinha. Vai ser a segunda que vamos fazer. Vai dar certinho.”

Rosa aproveitou a tal festa da capelinha para ouvir causos de pessoas de diferentes regiões. Pedro Fonseca escreve que “o que mais intrigava Manuelzão era o caderno espiral que ele (o escritor) levava, amarrado com um barbante e passado no pescoço”. O autor segue: “O pior era a perguntação danada. Queria saber de tudo. Via uma árvore, perguntava o nome. Anotava. Manuelzão já estava irritado com tanta pergunta boba.”

Isso porque, também conta Fonseca, o vaqueiro era um homem fechado, “um tanto misterioso”. Nasceu em Dom Silvério, cidade da Zona da Mata, em 1907, mas vivia em Andrequicé. Nunca contava, porém, o motivo pelo qual tinha trocado uma cidade pela outra, e nem mesmo seus seis filhos sabiam que ele havia vivido em outro lugar.

– Ele era muito mulherengo, gostava de uma confusãozinha, sabe? – diz Fonseca, com forte sotaque mineiro. – Dava uns tiros de revólver de vez em quando (risos). Saiu da terra dele com 25 anos e não voltou mais. Não contava o que tinha acontecido e, depois que morreu (em 1997, pouco antes de fazer 90 anos), eu me senti à vontade para investigar.

O sobrinho do vaqueiro descobriu que, na primeira cidade, Manuelzão havia se apaixonado por uma prima, mas casou-se com outra mulher, Rosa, “de quem ganhou um belo par de chifres”. O vaqueiro não tinha pai (“Imagine ser filho de mãe solteira para quem nasceu em 1907?”). Foi o autor quem levou, recentemente, a filha mais velha de Manuelzão, Maria, para conhecer o restante de sua família, na cidade de Dom Silvério.

Manuelzão chegou a ir a julgamento em 1978, acusado de causar lesões corporais num vizinho que, contra ele, havia disparado três tiros (sem sucesso). Na época, ele disse: “O que eu acho danado é, nesta idade, me sentarem ali e me chamarem de réu”, conta Fonseca no livro. O vaqueiro, enfim, acabou absolvido.

Fonte: Agência O Globo

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