CRB-10 publica nota de repúdio à interferência da Câmara de Vereadores de Uruguaiana na gestão da biblioteca pública da cidade

O Conselho Regional de Biblioteconomia 10ª Região (CRB-10) repudia a interferência da Câmara Municipal de Vereadores de Uruguaiana na gestão do acervo da Biblioteca Pública Municipal da cidade, pelos seguintes fatos:

1. O Jornal Correio do Povo, de 6 de outubro de 2017, noticiou que a Câmara de Vereadores de Uruguaiana quer a devolução da obra “Queermuseu: Cartografias da diferença na arte brasileira”, doada pelo Santander à Biblioteca Pública Municipal. A Câmara de Vereadores é composta por vereadores que são leigos em Biblioteconomia, ou seja, que não tem conhecimento acadêmico sobre as técnicas bibliotecárias;

2. Até onde sabemos, a Câmara de Vereadores não consultou os especialistas da área bibliotecária ou entidades historicamente ligadas a área: CRB-10, ARB, Fabico/UFRGS, Furg etc.;

3. A ação da Câmara de Vereadores atenta contra o Estado democrático de direito, visto que quer impor valores morais de uma parcela da sociedade, hoje em vantagem numérica de representação na câmara, sobre outra parcela da sociedade, em desvantagem;

4. O ato de perseguir as manifestações de pensamento de uma minoria traz consigo o risco de revanchismos, pois ao longo da história minorias se tornaram maiorias e vice-versa. O perseguido de hoje pode se tornar o perseguidor de amanhã. A Bíblia já foi alvo de perseguições em países que hoje tem maioria cristã. Algumas correntes oriundas da Reforma Protestante sofreram perseguições nos séculos passados e hoje agem com a mesma intolerância que agiam seus perseguidores.;

5. A Humanidade até hoje se beneficia da liberdade de formação de acervo das bibliotecas. Não é à toa que em guerras inimigos muitas vezes atentavam contra as bibliotecas, pela importância que seus acervos tem para o povo. A censura é um ato de agressão contra a biblioteca e o povo, utilizada em disputas internas pelo controle da sociedade, por grupos majoritários. Censura é inaceitável, pois para conteúdos potencialmente perigosos existe a “consulta restrita”. Até hoje o livro de Hitler “Minha Luta” é útil para o estudo do pensamento nazista para especialistas em várias partes do mundo, inclusive na Alemanha. Por certo não é uma leitura para crianças, mas não deve ser eliminado por isso. O simples ato de deixá-lo sob “consulta restrita” já é o suficiente. Mas a quem cabe o poder de decidir o que é ou não potencialmente perigoso? A Bíblia já foi considerada potencialmente perigosa. As razões devem ser indiscutivelmente fortes e baseadas em risco real, não em valores morais, que são mutáveis de tempos em tempos. Um livro que ensina jovens a construir bombas ou técnicas de cometimento de suicídio por certo é potencialmente perigoso. Mas de acordo com o pensador Ranganathan, “Todo livro tem o seu leitor”. Para profissionais da psicologia ou da segurança (Inmetro), conhecer as técnicas de suicídio pode ser útil para prevenir ocorrências futuras. Para militares conhecer as técnicas de construção de bombas pode ser útil para desarmar explosivos. O bibliotecário é o profissional legalmente habilitado para supervisionar a biblioteca e conhecedor de inúmeras técnicas, dentre elas a de filtrar o que pode ser colocado à disposição do grande público e o que deve ser colocado em consulta restrita, sem partidarismos, revanchismos, etc.

6. Esperamos que o bom senso impere e que os vereadores deixem a organização das bibliotecas para aqueles que legalmente lhes competem, conforme lei Federal 4084/1962, ou seja, aos Bibliotecários.

Conselho Regional de Biblioteconomia 10ª Região (CRB-10)

Fonte: CRB-10
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Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais convida para exposição “Monteiro Lobato: O maravilhoso universo do Sítio”

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Como menino pobre apaixonado por Carmen Miranda se transformou no ‘maior ladrão de livros raros do Brasil’

Eu só vi Laéssio chorar em duas ocasiões.

A primeira foi por raiva, quando um cliente fechou a porta em sua cara e ele, sem dinheiro para comprar sequer um sapato novo, sentiu-se humilhado. Já a segunda foi por amor – ao ler uma carta com um pedido de casamento enviada pelo namorado, detido em um presídio no Rio de Janeiro. Na maior parte do tempo, Laéssio não é de se lamentar. Um senso de humor abusado é seu traço mais marcante.

Laéssio Rodrigues de Oliveira é considerado pelas autoridades brasileiras o maior ladrão de livros raros do país (Foto: Reprodução/BBC Brasil)

Laéssio Rodrigues de Oliveira é considerado pelas autoridades brasileiras o maior ladrão de livros raros do país (Foto: Reprodução/BBC Brasil)

Considerado pelas autoridades brasileiras o maior ladrão de livros raros do país, Laéssio Rodrigues de Oliveira entrou na minha vida em uma tarde de setembro de 2012, quando recebi uma ligação a cobrar vinda do complexo penitenciário de Bangu, na zona oeste da capital fluminense, com um pedido insólito: um exemplar da biografia de Carmen Miranda escrita por Ruy Castro. “Essa história toda começou por causa dela”, resumiu.

O telefonema era uma resposta à primeira das dezenas de correspondências que trocaríamos ao longo das temporadas esparsas que Laéssio passaria em cadeias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Desde 2004, ele já deu entrada cinco vezes no sistema prisional. Ao todo, contabiliza quase uma década atrás das grades, sempre acusado do mesmo crime: pilhar acervos de Norte a Sul do país à caça de todo tipo de papel antigo de alto valor.

O leque de obras furtadas atribuído a Laéssio impressiona pela raridade e pela variedade. Vai das fotografias do funeral de Dom Pedro 2º, inclui um dos primeiros atlas do Brasil feito por um cartógrafo holandês do século 17 e passa por primeiras edições autografadas por cânones da literatura nacional. O crème de la crème das obras roubadas, no entanto, são os originais de desenhos feitos por artistas como o francês Jean-Baptiste Debret e o alemão Johann Moritz Rugendas, que no século 19 viajaram o país para retratar paisagens e personagens do Brasil colonial. Hoje, um álbum completo de Debret, por exemplo, não sai por menos de US$ 300 mil.

Desde março deste ano, Laéssio está preso no Rio de Janeiro, depois de ser condenado em primeira instância na Justiça Federal a mais dez anos e sete meses de prisão pelo furto de obras raras do Museu Nacional e do Museu Histórico Nacional, também no Rio. Ainda cabe recurso.

Dinheiro

“Minha história toda foi pobre. Ser rico é bom. É ótimo. Não estou falando ‘ser riquíssimo’, como esse povo que fica rico demais e aí vira essa palhaçada, essa desigualdade do c*ralho. Mas ser independente, morar bem, fazer o que quer, entendeu?”

Num intervalo de duas décadas, Laéssio trocou o anonimato do balcão de uma padaria em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, pelas manchetes de jornais de todo o país. Montou três bancas de antiguidades e um sex shop batizado de Mae West em homenagem à atriz americana que “era tipo a Dercy Gonçalves”, segundo ele. Também se especializou em Biblioteconomia e fez negócios com gente graúda.

Laéssio não ficou milionário, mas ganhou dinheiro suficiente para comprar um confortável apartamento no Largo do Arouche, no centro de São Paulo. Também se permitiu pequenos luxos, como vestir um terno Armani, passear com o ex-marido a bordo de um Audi A3 ou de um Chrysler PT Cruiser e custear um imóvel no Guarujá, litoral paulista.

“Eu vivia num mundo encantado. Eu era uma bicha louca, desvairada, achava que aquilo nunca iria acabar, que nunca iria dar problema”, confessa. Entretanto, torrou tudo tentando acertar as contas com a Justiça.

Desde aquela primeira ligação a cobrar que Láessio me fez em 2012, acumulei – além de incontáveis cartas – pilhas de processos judiciais, dezenas de horas de gravação e centenas de páginas de anotações feitas durante entrevistas em diversos locais, incluindo duas penitenciárias. Laéssio só topou me confidenciar sua história para que ela não ficasse encarcerada nas colunas policiais. “Eu não matei ninguém, cara. Vou me arrepender de quê? De que adquiri um monte de livro velho?”

‘O que é que a baiana tem?’

A mãe de Laéssio é uma senhora miúda de 62 anos que trabalha passando roupa e cuidando de idosos. Ela tem o costume de concluir as frases com um simpático “num sabe?” carregado de sotaque nordestino. Refere-se ao mais velho dos seis filhos – que criou sozinha a partir dos 31 anos de idade – como “Grandaião”, apesar de a compleição física de Laéssio nem de longe botar medo em quem quer que seja. “A família não quer nem saber desse assunto. É uma pena”, lamenta, antes de cair num choro envergonhado.

Laéssio nasceu em Teresina, em 15 de janeiro de 1973. Ainda criança de colo, mudou-se com a família do Piauí para São Bernardo do Campo. O pai trabalhava como eletricista. Quando bebia, costumava bater na esposa e era confrontado pelo primogênito, cujos trejeitos tiravam seu sono. O menino até chegou a ser levado a uma consulta médica para corrigir o suposto desvio. Mas não adiantou: depois que o pai morreu atropelado em uma rodovia, Laéssio saiu do armário, aos 15 anos de idade.

A mãe conta que desde muito cedo Laéssio era fissurado por gibis e jornais – inclusive, tinha o costume de empilhá-los no meio da sala. “Ele é muito inteligente, conversa sobre qualquer assunto”, diz. De fato, Laéssio é capaz de discorrer por horas em tom professoral sobre cinema, música e todo tipo de arte vintage.

Foi uma obsessão adolescente pela atriz e cantora Carmen Miranda que levou Laéssio a mergulhar no universo dos papéis antigos. Depois de escutar O que é que a baiana tem? pela primeira vez no rádio, decidiu colecionar tudo o que estivesse ao seu alcance sobre a artista. “Talvez seja aquilo que ela mesmo diz na música: ‘tem graça como ninguém’. Aquela brejeirice, como Dorival Caymmi disse uma vez, me dominou”, explica.

Para alimentar a compulsão de fã, Laéssio passou a furtar. O primeiro crime aconteceu no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo. Ao colocar os pés na biblioteca da instituição, nem precisou vasculhar as estantes. Seu olhar foi instantaneamente capturado pelo sorriso de Carmen Miranda estampado na capa de uma revista Fon Fon da década de 1940, em cima de uma mesa. Com a adrenalina a mil, certificou-se de que ninguém o vigiava, enfiou o exemplar na mochila e saiu andando.

“Aí comecei a minha peregrinação pelas bibliotecas. Tudo que era revista com a Carmen Miranda na capa eu saí levando. Comecei a ter paixão por aquilo”, relata.

Por volta de 1996, Laéssio conheceu seu primeiro cliente, Abel Cardoso Júnior, falecido escritor radicado em Sorocaba (SP) e autor de A Cantora do Brasil, biografia menos badalada da artista. “Vendi todo meu acervo para ele. Larguei um emprego na prefeitura para viver disso”, relembra.

O primeiro problema com a polícia também remonta a essa época. Certa vez, enquanto enchia a bolsa com revistas antigas no Arquivo Geral do Estado de São Paulo, foi flagrado por seguranças e conduzido a uma delegacia. Acabou liberado depois de gabaritar um quiz sobre Carmen Miranda feito pelo delegado e de jurar em vão que jamais voltaria a surrupiar uma biblioteca.

Comércio

Eis que Laéssio resolveu empreender: comprou uma barraca na Feirinha do Bixiga, tradicional reduto de colecionadores de antiguidades em São Paulo, e fez sociedade com o dono de uma banca de revistas pornôs na esquina das avenidas Ipiranga e São João. Seu métier eram publicações antigas sobre cinema, como Cena Muda e Cine Arte, e jornais com manchetes sobre a proclamação da República e a abolição da escravatura.

Além de atrair personalidades, como o ator John Herbert e o cineasta Zé do Caixão, as bancas de Laéssio também passaram a ser frequentadas por funcionários de bibliotecas oferecendo antiguidades de procedência duvidosa. “Eu não vou ser hipócrita: tinha coisas que eu estava comprando que sabia que eram roubadas”, afirma. Laéssio, então, sentiu a necessidade de diversificar os canais de venda. Aconselhado por clientes, resolveu desbravar leilões de papéis raros. “Uma vez, paguei R$ 10 num leque de carnaval dos anos 1930 na Feirinha do Bixiga, depois coloquei no leilão e ele foi vendido por quase R$ 500”, exemplifica.

No começo dos anos 2000, um dos mais prestigiados leilões era o da extinta livraria Universal, no centro do Rio de Janeiro. Criada por Joaquim Monteiro de Carvalho, empresário que participou da fundação da Klabin e das negociações que trouxeram a Volkswagen para o Brasil, a Universal era um convescote de amantes das artes dispostos a investir pesado em obras exclusivas.

“Eu comprava coisas na Feirinha do Bixiga e ia levando para a Universal. Aí, um dia o gerente me falou: ‘por que você não coloca livros? Dá mais dinheiro!’ Eu respondi: ‘pô, eu não entendo de livro, não'”, narra.

Aquela conversa representou uma virada na vida de Láessio. Para subir o sarrafo dos negócios, chegou à conclusão de que precisava se capacitar. “Foi por isso que eu fui fazer Biblioteconomia. Porque eu queria minha parte em ouro”, interrompe a si próprio com um sorriso de canto de boca pelo ato falho. “Em ouro, não… em livro velho, tá entendendo?”

Quando fala da Universal, Láessio se expressa em um tom que mescla nostalgia e deslumbre. “Era passatempo de gente rica. Lá, eu me sentia madame”, define. De fato, o perfil dos colecionadores que circulavam pelos leilões era tão refinado quanto ecumênico. Lá, podia-se cruzar com George Ermakoff, ex-presidente da companhia aérea Rio Sul; Jorginho Guinle, playboy de ofício e suposto affair de Marilyn Monroe; Manoel Portinari, sobrinho do célebre pintor modernista e fanático pelo poeta Manuel Bandeira; Pedro Corrêa do Lago, bibliófilo e ex-presidente da Biblioteca Nacional; e Ruy Souza e Silva, captador das obras que compõem a Brasiliana do Instituto Itaú Cultural e ex-marido de Neca Setúbal, herdeira da maior instituição financeira do país.

“Naquela época, os leilões eram presenciais. Dois ou três dias antes, as pessoas examinavam os livros. Não se levava gato por lebre de jeito nenhum”, garante Margarete Cardoso, uma das principais especialistas do mercado de obras raras do país. Por mais de meio século, ela trabalhou na livraria Kosmos, loja de raridades que funcionava no mesmo prédio da Universal, na Rua do Rosário, centro do Rio. “As pessoas iam aos leilões e aí serviam vinho, salgadinho, para ficar uma coisa bem chique mesmo. Mas isso tudo acabou. Com a internet, mudou bastante”, diz.

Fragilidades

Laéssio é relativamente viajado – afirma ter visitado Buenos Aires, Nova York e Paris e sonha com uma cerimônia de casamento em Lisboa. Mesmo assim, tem certeza de que o Rio de Janeiro é o melhor lugar do mundo. “A Mangueira e o Salgueiro precisam de mim, posto que eu me desmando e me transformo ao som da bateria de uma dessas escolas de samba”, ele me escreveu em dezembro do ano passado, quando estava preso em São Paulo pela quarta vez e fazia planos de passar o carnaval de 2017 em sua cidade de coração.

É justamente no Rio de Janeiro que Laéssio deixou mais digitais. Isso se explica pelo fato de a antiga capital federal concentrar os mais importantes acervos com obras de arte e documentos raros sobre o Brasil, como o Museu Nacional, o Palácio do Itamaraty, o Jardim Botânico e a Biblioteca Nacional. Mas ele também é acusado de crimes em outros Estados, como Bahia, Pará, Paraná e São Paulo. Nunca responde sozinho – em geral, é tido como o mentor intelectual de quadrilhas montadas para dilapidar acervos. “Para pegar livro, não é preciso matar ninguém, sequestrar ninguém. Sou alheio a violência, não gosto de violência”, ressalta.

Entretanto, ele já foi condenado por envolvimento com um grupo armado que rendeu funcionários e roubou obras de arte de um centro cultural em Campinas, em agosto de 2013. Apesar de não ter participado diretamente da ação, o processo lhe rendeu sua terceira passagem – de quase dois anos – pelo sistema prisional.

Basicamente, Laéssio é um especialista em furtos. Segundo os inquéritos policiais, suas técnicas variavam de acordo com a ocasião. Passando-se por pesquisador e aproveitando a distração de funcionários, livros e revistas eram escondidos em mochilas ou sob casacos largos. Em caso de obras de dimensões avantajadas, como álbuns de gravuras, páginas eram arrancadas a navalhadas e enroladas como pergaminhos. Subornos a seguranças para facilitar sua entrada também eram um modus operandi comum.

Mas havia também métodos menos ortodoxos – um deles era sugestivamente apelidado de “Efeito Borboleta”. Uma pessoa de corpo delgado e elástico o suficiente para se acomodar em um gaveteiro de biblioteca se escondia dentro do móvel durante horas, aguardando o fim do expediente para sair do casulo e recolher o material previamente selecionado. “Não faltava ar dentro do gaveteiro?”, perguntei espantado a um colega de Laéssio que certa vez me descreveu os detalhes da metamorfose. “Para quem já ficou em solitária na cadeia, isso é moleza”, ele devolveu sem pestanejar.

Na avaliação de Carlos Aguiar, procurador do Ministério Público Federal que conduziu as investigações de uma das duas ações que ainda correm contra Laéssio na Justiça Federal do Rio, sistemas de segurança falhos das bibliotecas, devido a orçamentos apertados, misturados com uma dose de desorganização das instituições, facilitaram os crimes.

"Minha história toda foi pobre. Ser rico é bom. É ótimo. Não estou falando 'ser riquíssimo', como esse povo que fica rico demais e aí vira essa palhaçada, essa desigualdade do caralho. Mas ser independente, morar bem, fazer o que quer, entendeu?", diz Laéssio

“Minha história toda foi pobre. Ser rico é bom. É ótimo. Não estou falando ‘ser riquíssimo’, como esse povo que fica rico demais e aí vira essa palhaçada, essa desigualdade do caralho. Mas ser independente, morar bem, fazer o que quer, entendeu?”, diz Laéssio (Foto: Reprodução/BBC Brasil)

“O Laéssio aprendeu a furtar se aproveitando dessas fragilidades”, analisa o procurador. “Eu me lembro que mandei ofício solicitando que adotassem providências. Eles não tinham sequer catalogado o material. Sequer sabiam qual era o acervo que eles possuíam”, afirma Carlos Aguiar, recordando-se do caso específico da Biblioteca Nacional, dez anos atrás.

De lá para cá, segundo o procurador, a série de furtos fez com que os sistemas de segurança das instituições fossem incrementados.

Na biblioteca do Museu Nacional, por exemplo, um retrato de Laéssio – ao estilo faroeste – ainda hoje decora a mesa de vigilantes. Dos arquivos da instituição foram levadas a navalhadas dezenas de gravuras de aves desenhadas pelo naturalista francês Louis Jean Marie Daubenton no século 18.

“Eram coisas maravilhosas”, atesta Alberto Cohen, pioneiro na organização de leilões de papeis raros no Rio de Janeiro. Em abril de 2004, as obras foram arrematadas em um evento organizado por ele no bairro de Ipanema por cerca de US$ 30 mil. Semanas depois, o leiloeiro tomou conhecimento pelos jornais de que as gravuras haviam sido furtadas do Museu Nacional.

“O Laéssio me deu um trabalho danado”, conta entre risos tímidos que abafam ainda mais sua voz rouca. “Eu caí na história dele. Ele me convenceu de que tinha conseguido aquilo na banca de jornal dele. Ele entendia do assunto mesmo”, justifica-se. Alberto, então, procurou a Polícia Federal, devolveu o material e reembolsou os clientes. Porém, afirma não ter recuperado o dinheiro adiantado a Laéssio. “Como todo um-sete-um, vigarista, ele é muito boa gente. Eu não tenho raiva dele, apesar de ele ter me dado um prejuízo louco”, finaliza.

Notoriedade

O jovem estudante Raskólnikov – protagonista de Crime e Castigo, clássico de Fiódor Dostoiévski – construiu uma teoria curiosa para limpar a própria consciência, depois de roubar e assassinar uma idosa agiota. Segundo ele, figuras como Napoleão Bonaparte só se consagraram como extraordinárias porque ousaram correr riscos e até mesmo derramar sangue em nome de ideais de grandeza. Dessa forma, a História – com H maiúsculo – se encarregaria de absolvê-las de eventuais condenações morais.

Feitas as devidas adaptações, o raciocínio de Laéssio bebe da mesma fonte da ética particular de Raskólnikov. “Uma coisa que eu comecei a praticar desde cedo foi a leitura de biografias. Sempre me encantaram as pessoas que vieram para o mundo tanto para o bem quanto para o mal”, introduz Laessio. “Aí eu pensei: Caraca! Será que eu vou vir para a merda deste mundo para passar batido, só para fazer volume?”

Em março deste ano, Laéssio foi detido pela quinta vez depois de ser condenado em primeira instância na Justiça Federal pelo furto de obras raras do Museu Nacional e do Museu Histórico Nacional, ambos no Rio de Janeiro. A sentença foi proferida 13 anos depois dos crimes e o condenou a mais uma década de cárcere. De acordo com a Defensoria Pública da União, que já recorreu da decisão, um dos ilícitos imputados a Laéssio – o furto de revistas antigas do Museu Histórico Nacional – já havia sido considerado prescrito em outro processo e, portanto, não poderia ter sido novamente julgado.

“Laéssio está pagando desproporcionalmente caro, especialmente em relação a outros envolvidos e em relação às penas estipuladas no Código Penal”, afirma o advogado José Carlos Abissamra Filho, que há poucos meses assumiu a defesa de Laéssio. “O que parece é que ele têm sido tratado como bode expiatório de males sociais não atribuíveis a si, o que é, evidentemente, ilegal.”

Um mês após a última detenção, Laéssio entrou novamente no radar da polícia: é o suspeito de um furto na biblioteca da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de fazer um inventário, a instituição divulgou que 303 títulos haviam sido levados de seu acervo, acredita-se, durante uma reforma do prédio em 2016. Dentre as peças subtraídas, há originais dos Sermões do Padre Antônio Vieira e fotos do começo do século passado de índios da Amazônia. O material é estimado em até R$ 500 mil.

A relação de Laéssio com o sistema prisional é um capítulo à parte. Nos cinco anos que passou em Bangu, por exemplo, ele chegou a montar uma biblioteca na penitenciária depois de solicitar doações a diversas editoras. A inspiração veio do trabalho realizado por Dilma Rousseff no período em que a ex-presidente ficou presa durante a ditadura militar. Em agosto, Laéssio virou notícia novamente ao mandar uma carta à direção da Biblioteca Nacional solicitando livros para o presídio em Japeri onde se encontra atualmente detido – o pedido foi revelado na coluna de Ancelmo Gois, no jornal O Globo, com o título “cara de pau”.

Com a bagagem de quase uma década atrás das grades, Laéssio teve de se adaptar à vida no cárcere, mesmo sem colocar uma gota de álcool na boca ou usar qualquer tipo de droga, itens tão acessíveis nos presídios. E, por dominar a norma culta da língua e conhecer o Código Penal (cursou a faculdade de Direito por quase dois anos), ele mata o tempo redigindo pedidos de indulto e de progressão de regime para colegas detentos.

Certa vez, referindo-se em tom de brincadeira à significativa população de homens que fazem sexo com homens nas penitenciárias, ele me disse com seu típico ar debochado: “meu medo não é ser preso. Meu medo é ficar pobre. Com dinheiro, a cadeia pode virar a gozolândia”.

Em uma de suas últimas correspondências endereçadas a mim, Laéssio queixou-se de certa perseguição por parte da Justiça e da imprensa: “só me falta ser acusado de roubar novamente o quadro da Mona Lisa, nesses tempos modernos, posto que o mesmo já completou os seus 100 anos que foi furtado pela última vez no Louvre. Mas fique tranquilo que eu jamais orquestrarei tal ação, uma vez que eu já me dou por cansado e velho demais para continuar nessa vida”.

*Carlos Juliano Barros assina com Caio Cavechini a direção do documentário ‘Cartas para um Ladrão de Livros’, que estreia no Festival do Rio no dia 9 de outubro

Fonte: BBC Brasil

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CEALE debate “A mediação pedagógica na escrita espontânea da criança”

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Alunos de biblioteconomia do UNIFOR-MG visitam Inhotim, em Brumadinho

Alunos do curso de Biblioteconomia do Centro Universitário de Formiga (UNIFOR-MG) visitaram o museu Inhotim, localizado na cidade de Brumadinho (MG)

O Instituto Inhotim é a sede de um dos mais importantes acervos de arte contemporânea do Brasil e considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina. Surgiu em 2004 para abrigar a coleção de Bernardo Paz, empresário da área de mineração e siderurgia, que foi casado com a artista plástica carioca Adriana Varejão, e há 20 anos começou a se desfazer de sua valiosa coleção de arte modernista, que incluía trabalhos de Portinari, Guignard e Di Cavalcanti, para formar o acervo de arte contemporânea que agora está no Inhotim.

Segundo Margarita Torres, coordenadora do curso de Biblioteconomia, a visita técnica ao museu Inhotim é realizada anualmente com os alunos, a fim de que obtenham conhecimento de um formato de museu diferenciado. Em galerias e em meio à natureza é possível observar diversas obras de arte contemporâneas. Esta interação de meio ambiente e arte proporciona o desenvolvimento de ações de caráter socioeducativo nas mais diversas áreas.

Fonte: UNIFOR-MG

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Projeto no ES quer recuperar detentos pela leitura

Pena pode diminuir em até 48 dias por ano com a ação

Doze livros por ano, com resenhas produzidas pelos detentos e avaliadas por professores e alunos do curso de Letras das Faculdades Integradas Espírito-Santenses (Faesa). Para cada livro lido, quatro dias a menos na pena. Essa é a proposta do projeto Virando a página, que começou a ser realizado na Penitenciária Semiaberta de Vila Velha (PSVV), no Espírito Santo.

Primeiro livro do projeto será O pequeno príncipe (Foto: TJES)

A remissão por meio da leitura é prevista pelo Conselho Nacional de Justiça, na Recomendação nº 44/2013. No Espírito Santo, apenas os detentos do regime fechado da Penitenciária Regional de São Mateus, no norte do estado, tinham oportunidade de diminuir a pena dessa maneira. Com o Virando a página, a ideia é estender o projeto para todos os presídios estaduais, sejam eles masculinos ou femininos.

Essa é uma iniciativa da Defensoria Pública do Estado, em parceria com a Faesa, que tem apoio do Tribunal de Justiça do Estado e Secretaria de Estado da Justiça. A princípio, 20 detentos da PSVV foram selecionados para participar da primeira etapa do projeto. O livro escolhido foi O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Eles terão um mês para ler a obra e realizarão uma oficina para debatê-la com professores universitários.

Após a leitura, os detentos produzirão um texto, cuja análise levará em consideração o grau de instrução de cada um. Os que possuem apenas o Ensino Fundamental farão um resumo do livro. Já os que possuem Ensino Médio deverão produzir uma resenha crítica. Os textos serão avaliados por uma comissão voluntária, formada por professores e alunos. Caso o trabalho obtenha mais de 60% de aproveitamento, a pena será diminuída em quatro dias.

Próximas leituras

Para os próximos meses, estão previstas as leituras de O guardião, de Nicholas Sparks; O jogo do anjo, de Carlos Ruiz Zafón; O fio das miçangas, de Mia Couto; e O menino do pijama listrado, de John Boyne.

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CBL promove workshop: Como editar e elaborar um catálogo de HQ

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Boletim eletrônico do CFB já está disponível para leitura online

Clique na imagem para acessar o conteúdo na íntegra.

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Show em BH com desconto para bibliotecários registrados no CRB-6

Banda Blues Beatles traz clássicos do quarteto em novos arranjos

No dia 27 de outubro, a banda Blue Beatles se apresenta no Cine Theatro Brasil Vallourec, em Belo Horizonte, e os bibliotecários em dia com o Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª região (CRB-6) terão desconto nos ingressos.

Serão disponibilizados 50 lugares em qualquer um dos setores, no valor promocional de R$ 50,00 – um desconto de R$ 30,00 sobre o valor nominal do ingresso. A venda será realizada na bilheteria do teatro até o dia 20 de outubro e o acompanhante do bibliotecário também tem direito ao desconto.

Vale lembrar que esse valor não é cumulativo com outras promoções. Clientes do banco Itaú, por exemplo, pagam meia-entrada (limitada a um ingresso por CPF) em qualquer compra e podem escolher qual das duas opções é mais vantajosa.

Beatles em ritmo de blues

O show trará novos arranjos para clássicos como YesterdayHelp e Ticket to ride, que adaptaram as canções dos Beatles ao gingado do blues. Para ter uma prévia do que está por vir, ouça a versão de A hard days nightfeita pela banda.

Blues Beatles
Data: 27/10/2017 | Horário: 21h
Local: Cine Theatro Brasil Vallourec (Av. Amazonas, 315 – Centro, Belo Horizonte)
Ingressos: R$ 50,00 – na bilheteria do teatro (limitado a 50 ingressos, em qualquer setor)
O bibliotecário precisa apresentar o comprovante de regularidade da anuidade 2017, que pode ser impresso aqui.

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Participe da 3ª Semana de Inovação em Gestão Pública: Transformação digital

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Fórum Técnico Semeando Letras começa nova fase

Encontros regionais foram concluídos nesta terça-feira

Depois de percorrer todas as regiões do Estado, o Fórum Técnico Semeando Letras – Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas de Minas Gerais (PELLLB-MG) chega agora à fase de consulta pública.

Os encontros regionais foram concluídos nesta terça-feira, 3 de outubro, com um evento em Teófilo Otoni. O Fórum também passou por Uberlândia (26/09), Belo Horizonte (21/09), Governador Valadares (19/09), Montes Claros (12/09), Juiz de Fora (05/09) e Varginha (29/08).

Todo esse caminho percorrido foi importante para reunir diversos segmentos da sociedade civil e coletar sugestões que irão nortear a elaboração do PELLLB-MG. Esse é o documento que vai estabelecer as metas e diretrizes para democratizar a leitura e ampliar o acesso às bibliotecas do Estado nos próximos dez anos.

Nos encontros, foram discutidos quatro grandes temas: democratização do acesso; fomento à leitura e à formação de mediadores; valorização institucional da leitura e de seu valor simbólico; e desenvolvimento da economia do livro. O Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6) é uma das entidades parceiras do projeto e foi representado pela tesoureira Denise Ramos (CRB-6/1000).

Deixe sua opinião

Agora todo mundo pode contribuir com as discussões do Fórum Técnico Semeando Letras. Até o dia 13 de outubro, uma consulta pública estará aberta no site da Assembleia Legislativa de Minas Gerais para ouvir a opinião da população sobre os temas abordados nos encontros regionais. Essas contribuições serão debatidas durante a etapa final do PELLLB-MG, prevista para os dias 22, 23 e 24 de novembro, em Belo Horizonte, quando o documento final do projeto será consolidado.

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