Colecionadora Priscila Freire doa seu acervo à UEMG

Diretora do Museu de Arte da Pampulha ainda cede uma parte do terreno da casa onde mora para a instalação de uma escola de arte

Priscila Freire

Priscila Freire foi superintendente dos museus de Minas Gerais, coordenadora do Sistema Nacional de Museus em Brasília e, mais recentemente, diretora do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, cargo que ocupou por cerca de 15 anos. Escreveu livros, trabalhou na extinta TV Itacolomi e chegou a atuar como atriz. Ao longo desse percurso pela cultura, tornou-se também colecionadora de arte, com destaque para a arte popular do Vale do Jequitinhonha. Aos 80 anos, viúva e sem filhos, ela não abriu mão de continuar na imensa chácara onde mora, hoje cercada pelos prédios e casas no Bairro São Bernardo, na Região Norte da capital mineira, mas foi capaz de um gesto raro: cedeu todo o seu acervo à Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg), além de uma área na chácara onde mora, para que ali seja instalada uma escola de arte.

A coleção de Priscila Freire inclui cerca de 150 peças de vários ceramistas e aproximadamente 120 obras de artistas como Guignard (só dele são 17 telas), Amilcar de Castro, José Pancetti, Nello Nuno, Geraldo Telles de Oliveira, Irma Lessa, Pedro Correia de Araújo e Artur Pereira, fora os pouco conhecidos desenhos feitos por Tarsila do Amaral durante viagem a Minas Gerais, em 1924. Já a Chácara Santa Eulália, com nada menos que 53 mil metros quadrados, foi cedida para que a Uemg preserve sua área verde e construa ali, numa fração de 2 mil metros quadrados, um núcleo de experimentação artística.

“Meu pai comprou esta área em meados dos anos 1930. Pensou em fazer uma olaria e, como gostava de botânica, plantou várias árvores. O bairro cresceu ao redor da chácara e, quando ele quis vendê-la, nos anos 1960, eu comprei”, conta Priscila. “Eu não queria morar em apartamento. A família ficou horrorizada com minha decisão. Vim para proteger esta área e não vou deixar jogarem fora o trabalho que meu pai começou. Já tive muito problema com enchente e gente que põe fogo em mato, por exemplo, mas acho que temos obrigação de preservar um espaço como este para a cidade.” Agora curadora do seu próprio acervo, Priscila Freire continuará morando no local.

Na prática O conjunto das obras que guarda em casa, já sob responsabilidade da Uemg, recebeu o nome de Acervo Alberto e Priscila Freire (Alberto era o marido dela). A primeira providência tomada pela instituição será catalogar e organizar as obras de arte, fotos e documentos. Paralelamente, Priscila e a artista plástica Marina Nazareth (uma das idealizadoras do projeto) vão definir, em conjunto com a Escola Guignard, como funcionará o espaço de experimentação, batizado temporariamente de Núcleo Experimental da Escola Guignard. Terá ateliês, oficinas e residência artística, bem como espaço reservado a exibição do acervo.

Depois de conversar com a colecionadora, foi Marina Nazareth quem formatou a proposta apresentada à Escola Guignard. “Priscila foi amiga de Guignard, atuou na área de museus e é uma executiva de primeira ordem”, afirma Marina. “Acompanho a carreira dela há muitos anos e tudo isso coincide com meu desejo em retomar um núcleo de experimentação da escola como no passado, quando tivemos Amilcar de Castro à sua frente. Fizemos isso no Museu da Pampulha e, depois, numa casa do Bairro de Lourdes durante uns três ou quatro anos, nos anos 1980. Foi um trabalho muito importante naquela época.”

Para Marina Nazareth, o projeto na chácara é fundamental para equilibrar reflexão e prática no fazer artístico. “A prática é fundamental e a reflexão é que deve ser feita sobre a prática”, ensina. “Hoje há ênfase muito grande na teoria e as pessoas saem das escolas sabendo fazer discursos teóricos perfeitos, mas sem trazer isso para a prática. Não há como substituir a experiência que se tem com as mãos. A reflexão é um momento posterior e esse diálogo deve ser permanente.”

Desprendimento Para o reitor da Uemg, Dijon Moraes Júnior, o gesto de Priscila Freire lembra os de José Mindlin, advogado, empresário e bibliófilo que cedeu seus livros à Universidade de São Paulo, e Yolanda Penteado, que doou obras de arte e dinheiro a museus, e está ligado ao reconhecimento da relevância da instituição. “Ela não correrá nenhum risco de desmembramento de seu acervo, ao qual estaria sujeita fora do ambiente universitário”, observa.

Já Ana Cristina Brandão, diretora da Escola Guignard, acredita que a doação feita pela colecionadora é uma feliz coincidência: “Este ano a escola completa 70 anos e poderemos retomar projeto de produção e reflexão sobre arte. Nosso espaço físico, hoje, atende aos cursos de graduação e pós-gradução, por isso essa nova área vem a calhar”.

Um tesouro

Foi nos anos 2000, após visita à exposição de arte popular do Vale do Jequitinhonha em Belo Horizonte, que Priscila Freire percebeu a oportunidade de comprar de uma vez só aquele que hoje é considerado um dos mais significativos acervos de arte popular da região. A curadora Vera Pinheiro lhe falou sobre a pesquisadora Silvia Rezende, que por muitos anos se dedicou a comprar essas peças. “Ela já havia morrido e seus enteados haviam encaixotado tudo e deixado numa fazenda. Perguntei se me venderiam e deu certo”, conta Priscila. A coleção inclui vasos, jarros, representações de cenas cotidianas e figuras fantásticas, como uma curiosa mulher-cachorro, bem como as valorizadas bonecas de Izabel Mendes da Cunha.

Fonte: Estado de Minas | Eduardo Tristão Girão

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