Faltam livros, funcionários qualificados e leitores nas bibliotecas do DF

Modelo de gestão que submete as instituições ao controle das administrações locais é considerado ultrapassado por especialistas e ignora as necessidades específicas do setor

O modelo de gestão das bibliotecas públicas e escolares — imposto pelo Governo do Distrito Federal por um decreto de 1996 — impede que a população tenha acesso aos livros — quase todos de segunda mão — guardados nessas instituições. A ausência de políticas para o setor fica evidente até mesmo nos estabelecimentos considerados mais bem equipados, como nas bibliotecas da Candangolândia e de Sobradinho II. Absurdos são vistos em unidades como a de Samambaia, que se restringe a uma única sala, fechada por uma porta de metal, ventilada por basculantes e com parte do forro destruído. Ou ainda a de Planaltina, que estava fechada quando a reportagem chegou. Especialistas apontam a descentralização na gestão dos locais; a falta de profissionais formados em biblioteconomia; a ausência de uma rede que conecte acervos e que facilite o acesso aos livros; além do desconhecimento das necessidades de cada região administrativa como os principais agravantes da situação.

Carrinhos enferrujados, poeira e estantes vazias: os locais não oferecem serviços ou atrativos para estimular o hábito de leitura (Foto: Jhonatan Vieira/D.A.Press)

Carrinhos enferrujados, poeira e estantes vazias: os locais não oferecem serviços ou atrativos para estimular o hábito de leitura (Foto: Jhonatan Vieira/D.A.Press)

Das 26 bibliotecas públicas do DF, somente quatro têm internet disponível para os usuários. São elas a do Cruzeiro, a de Sobradinho, a de Ceilândia e a da Candangolândia. Além disso, apenas seis bibliotecários atendem os estabelecimentos, sendo dois em Brasília, um em Sobradinho, um em São Sebastião, outro no Núcleo Bandeirante e o sexto em Vicente Pires. Nenhum dos locais tem independência financeira ou conta com qualquer verba para ampliar e melhorar o acervo.

Nenhum dos locais tem independência financeira ou conta com qualquer verba para ampliar e melhorar o acervo (Foto: Jhonatan Vieira/D.A.Press)

Nenhum dos locais tem independência financeira ou conta com qualquer verba para ampliar e melhorar o acervo (Foto: Jhonatan Vieira/D.A.Press)

A reportagem do Correio visitou as bibliotecas de Taguatinga, de Ceilândia, do Recanto das Emas, de Samambaia, da Candangolândia, de Sobradinho, de Sobradinho II e de Planaltina. Na maioria delas, as estantes eram velhas e envergavam com o peso dos livros. Havia muita poeira. A equipe também flagrou carrinhos de transporte de material enferrujados, forros quebrados e locais mal iluminados. A do Recanto das Emas estava pintada, mas vazia. A sessão de livros infantojuvenis, estava abandonada em um beco, entre a parede e uma das estantes.

No caso da rede pública de ensino, são 575 bibliotecas funcionando e 87 fechadas, para atender a um total de 659 escolas. Professor de biblioteconomia da Faculdade de Ciências da Informação da Universidade de Brasília (UnB), Emir José Suaiden afirma que o modelo antiquado de gestão se espalha também nas bibliotecas das escolas, para as quais, segundo ele, o GDF se limita a distribuir os livros didáticos do Ministério da Educação (MEC) e não investe o suficiente em literatura infantojuvenil para cativar novos leitores.

Persistência

A reportagem encontrou, entre a maioria dos frequentadores, concurseiros e vestibulandos. Nenhum dos abordados, no entanto, contava com exemplares da biblioteca para estudar. Além disso, em nenhum dos estabelecimentos, havia acervo digitalizado ou acesso a títulos de outras unidades para auxiliar em buscas e pesquisas.

Segundo Emir José Suaiden, desde a inauguração de Brasília, bibliotecários da capital federal lutam por um sistema de rede que interligue as instituições. Ele lamenta que o descaso do governo com tais espaços reflita uma realidade comum em todo o país. Por outro lado, o professor lembra os bons exemplos que mostram que não há motivo para a capital perpetuar a falta de cuidado com o setor. “Em São Paulo, há bibliotecários especializados nas escolas. Já o GDF não tem pessoal qualificado. A verba aqui é irrisória”, lamenta.

O presidente da Associação dos Bibliotecários do DF, Ricardo Rodrigues, concorda com a avaliação. Ele destaca que a desatenção do governo também é reflexo do pouco hábito de leitura da população brasileira. “Consequentemente, nossas autoridades não dão valor a esses espaços”, pondera. Para Ricardo, soma-se à falta de estrutura e de pessoal a forma de gerenciar as bibliotecas do DF, que também deixa a desejar.

Há uma diretoria do setor na Secretaria de Cultura (SeCult), mas as bibliotecas públicas são subordinadas às administrações regionais. “Muitos gestores foram indicados por administradores para um ‘cargo de confiança’ sem ter qualquer experiência na área. Como fazer alguma melhoria sem saber quem é o responsável e qual a competência técnica da pessoa? A associação propõe, batalha por mudança em todo o sistema, mas é complicado. Você fala que é bibliotecário e as pessoas não te recebem”, lamenta.

Um novo horizonte

Diretora do sistema de bibliotecas públicas da SeCult e doutora em ciência da informação, Graça Pimentel admite os problemas. Segundo ela, a diretoria presta apoio técnico às 26 unidades espalhadas pela capital, com reuniões bimestrais e trimestrais e pelo menos uma visita anual a cada uma delas. “Entre as dificuldades, estão a falta de recursos humanos qualificados, de espaço público e a aquisição de acervo”, lista. “No fim do ano passado, fizemos um curso de capacitação para 130 pessoas que atuam nas bibliotecas e licitamos a aquisição de 6,5 mil livros, a R$ 180 mil, para atender à rede de bibliotecas públicas, além do programa ‘Mala do Livro’. Também estamos estudando meios de gestão para termos a condição de criar um sistema que conecte os acervos das bibliotecas públicas”, afirma.

No entanto, não há previsão para a instalação dessa rede virtual de unificação. Segundo Graça, aos poucos, o GDF garantirá acesso à internet a todas as unidades que ainda não contam com o serviço. “Em 2016, também, fizemos arrecadação de exemplares da Bienal do Livro e recebemos outros de instituições governamentais. Sabemos que isso não é suficiente, mas tentamos manter acervos menores e com melhor qualidade. No ano passado, tivemos 523 mil atendimentos nas unidades e outros 630 mil pelo ‘Mala do Livro’. Estamos com um cenário melhor”, comemora.

A pedagoga Shirley Bragança, gerente da Gerência de Bibliotecas, Livro e Leitura da Secretaria de Educação, explica que a pasta tenta suprir a necessidade de investimento em livros infantojuvenis, por exemplo, com a democratização da escolha e compra de novos títulos, feita por professores e por estudantes. “Todos os anos, reservamos uma verba para que eles comprem novos livros na Feira do Livro de Brasília. No ano passado, foram R$ 500 mil e, neste ano, possivelmente, R$ 600 mil. Os alunos fazem a lista de títulos e participam de encontros com autores. É uma forma de democratizar a leitura.”

O órgão também estuda a criação de uma rede, o Programa Ler, que conecte os acervos das bibliotecas escolares, um projeto que está previsto para ser lançado em julho deste ano, mas, inicialmente, sem integração com a rede da SeCult. A concretização, porém, vai depender do modelo de gestão, que exigirá treinamento e contratação de pessoal especializado. “Gerimos as bibliotecas escolares e as comunitárias, que complementam os acervos das escolas e atendem a mais de uma unidade por região. Nossa meta é ter um bibliotecário, em cada biblioteca escolar comunitária, que oriente os professores. Isso é importante, pois precisamos de um profissional ligado à grade curricular para cuidar desses espaços, segundo as necessidades educacionais”, explica.

Por último, Shirley destaca que as escolas também têm programações ligadas ao desenvolvimento cultural dos alunos. “Mas o principal nas nossas bibliotecas é o desenvolvimento do currículo”, destaca. “Ainda temos muito o que fazer, o que desenvolver: políticas de incentivo à leitura, comprometimento dos pais, estímulo para que empresários abram livrarias nas cidades satélites. O que investimos não é suficiente, mas tende a aumentar e o GDF está abrindo os olhos para isso”, garante.

Do século passado

O Decreto 17.684, de 18 de setembro 1996, instituiu a rede de bibliotecas públicas do Distrito Federal, composta por todas as bibliotecas públicas das regiões administrativas, pela Biblioteca Pública de Brasília e pela Biblioteca Nacional, pertencentes à Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Embora o texto garanta o suporte técnico da Secretaria de Cultura, o artigo 3º vincula as unidades às administrações regionais, inclusive financeiramente.

Para saber mais

Biblioteca Demonstrativa fechada

Os problemas podem ser vistos até mesmo no centro da capital. A Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB), vinculada à Fundação Biblioteca Nacional, órgão do Ministério da Cultura, está prestes a completar três anos fechada. Localizada na Entrequadra 506/507 da Asa Sul, foi interditada pela Defesa Civil em 6 de maio de 2014. À época, o órgão alegou que a estrutura apresentava riscos para usuários e funcionários. Em outubro do ano passado, no entanto, a área foi liberada para uso. “O que sabemos é que as reformas foram feitas e, agora, aguardamos que ela seja devidamente aparelhada, com a recomposição dos acervos e mobílias. Enquanto isso, seguimos esperando”, afirma o presidente da Associação de Amigos da BDB, Mauro Mandelli. Morador da 706 Sul, Tancredo Maia, 69 anos, lamenta o desperdício do espaço cultural. Ele, assim como filhos e netos, foram frequentadores da biblioteca. “São três gerações. É uma perda ter uma área dessas fechada por tanto tempo. É um descaso do poder público federal com um espaço importante para a cultura brasiliense”, reclama.

Fonte: Correio Braziliense | Luiz Calcagno

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