Museu no Espírito Santo expõe produção do arquiteto Paulo Mendes da Rocha

Mostra apresenta seis décadas de trabalhos onde se destacam o engajamento social e a poética do espaço que lhe renderam o Prêmio Pritzker em 2006

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha (Foto: Divulgação)

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha (Foto: Divulgação)

Na Enseada do Suá, o confronto monumental entre a natureza e a arquitetura, numa área de 32 mil m². Um complexo cultural suspenso do solo a partir do qual os frequentadores terão vista livre da paisagem de Vitória. Cenário que o autor do projeto, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, nascido na cidade, filho de um engenheiro de portos, conhece desde sempre.

Criado com a ambição de se tornar referencial no País, o Cais das Artes está 43% pronto e tem previsão de abertura pelo Estado para 2014. É uma de suas principais obras em andamento. Terá museu com espaço expositivo de 3 mil m², teatro multiuso para 1.300 pessoas e uma praça.

Perto dali, no Museu Vale, na vizinha Vila Velha, outros 20 projetos de uma vida inteira estarão expostos a partir de sexta-feira para o público. A mostra Paulo Mendes da Rocha: A Natureza Como Projeto, com curadoria do crítico de arquitetura Guilherme Wisnik, tem entre os destaques projetos em que fica evidente a ação da técnica sobre a geografia, mais especificamente, as águas, e o redesenho da paisagem natural.

Nem todos foram construídos, apesar de terem a assinatura de um dos arquitetos brasileiros fundamentais, nome de destaque internacional há décadas e dono de um Prêmio Pritzker – o Nobel da área foi concedido no Brasil apenas a Oscar Niemeyer, seu amigo.

Mesmo estes estarão na exposição, em maquetes, por conter ideias poderosas, ainda que possam parecer utópicas aos mais céticos. Como a Cidade do Tietê, de 1981, proposta de construção de uma cidade-porto que integre as redes de transporte rodoviárias e ferroviárias e componha um sistema capaz de sustentar o desenvolvimento econômico da cidade, chegando tanto à região amazônica quanto ao Sul.

E o projeto de reconfiguração da Baía de Montevidéu, de 1998, que, realizado durante um seminário internacional de trabalho na Escola de Arquitetura da capital uruguaia para o qual Mendes da Rocha foi convidado, busca resolver o problema de uma baía rasa sem uma interlocução proveitosa com a cidade.

Ele pensou numa baía que fosse incorporada pela população, servisse ao transporte de massa, aliviando o tráfego, com porto ampliado e uma praça movimentada – quase uma Veneza ao sul das Américas. O mais importante: a capacidade de ligação fluvial com o Brasil, chegando até o Norte. Uma questão cara ao arquiteto, como mostra o vídeo que abre a exposição.

“Há muito o que se fazer em termos de navegação interior na América. Estamos muito atrasados. Isso implicaria a paz no continente. O sistema Tietê-Paraná-Uruguai com pequenas obras poderia se interligar com o Tocantins-Araguaia”, ele explica.

“Esse horizonte do que temos que fazer é muito esperançoso para os estudantes. Queria que eles se entusiasmassem com essa visão, e não simplesmente com edifícios de apartamentos para vender. É o futuro da arquitetura. É interessante essa visão estratégica da arquitetura sobre a dimensão do próprio território. E não somente viga, pilar, arco, porta, sala, corredor, cozinha e banheiro.”

A fala de Mendes da Rocha – 84 anos amanhã, antítese do arquiteto superstar da era das obras espetaculares – exprime o entendimento do ofício que exerce desde 1954, quando se formou pela Universidade Mackenzie: a supremacia da ideia sobre a imagem, o desprezo pelo supérfluo, a preocupação com o social.

“Ele recusa a valorização da arquitetura enquanto imagem, a promoção do ego, tem uma ética da singeleza. A exposição foi pensada para transmitir ideias”, conta o curador.

Os visitantes verão as obras mais conhecidas, como as oriundas dos concursos vencidos nos anos 1950, 60 e 80: o Ginásio do Clube Atlético Paulistano, o Pavilhão do Brasil na exposição universal em Osaka, o Museu da Escultura.

São construções em que racionalidade e lirismo se coadunam. Como no Cais das Artes. “Espero que seja um teatro comovente, para você ver e ouvir espetáculos e depois comentar nesse salão que cumprimenta os navios”, diz o autor, que, a despeito da idade, não mudou a rotina de trabalho diário no escritório do centro de São Paulo, sua cidade desde os anos 1930.

“Arquitetura faz muito bem à saúde, você imagina que está realizando os desejos dos outros. O Oscar é 20 anos mais velho do que eu e é incrível a lucidez. A arquitetura dele é como um tesouro guardado para se ir descobrindo aos poucos”, equipara.

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Fonte: Estadão

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